CRÍTICA DO LIVRO DE LUIZ LEITE

Paulo Zifum

A crítica apresenta uma valoração do objeto analisado. Em geral, o crítico não pode apresentar uma avaliação puramente subjetiva, mas também deve apresentar descrição de aspectos objetivos que deem sustentação aos seus argumentos. O livro Estratégia, Cálculo e Equilíbrio do autor Luiz Leite é didático. A linguagem clara, o ótimo roteiro de ideias e as metáforas bem escolhidas, fazem o leitor fluir na compreensão. Os capítulos podem ser lidos isoladamente, tamanha a praticidade de cada tema abordado. Outra característica desse livro são os “gatilhos” de informação cultural, desde fatos históricos até a introdução da ambiência do mercado financeiro. O livro é motivacional, mas não do tipo “você pode, você é sensacional, você vai conseguir”. O autor evita essas expressões baratas. O texto é sério e seu título está totalmente justificado. Vale a pena ler, reler e indicar.

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A CHUVA HUMILHA

Paulo Zifum

 

O ser humano pode interferir,

Ferir a terra, arrancar lá do fundo

Mundo de água, do poço se achar

 

Mas não pode fazer chover

Nem fazer parar de chover

 

Com toda tecnologia,

Magia de bronze e silício

Comício de progresso, com todo sucesso

 

Não pode fazer chover

Nem parar de chover

 

Se Deus não olhar

Molhar a terra com dó

Pó seremos, sobre toda tela touch

 

Se Deus não parar,

Estancar o céu chorão

Então, afogaremos com toda a ciência

 

Precisa pedir com jeito

Orar e bater no peito

A chuva humilha o sujeito

 

 

 

 

VIDA DE RIO 2

Paulo Zifum 

Minha vida fez uma curva
Queria que fosse reta
E seguisse sem demora
Mas a curva se fez
E tudo quase parou
E a sujeira do meu coração
Encostou às margens do meu rio
E reclamei com Deus
 
Minha vida fez mais curvas
Por que tanta volta?
Pra que tantos problemas?
E mais curva se fez
E tudo quase parou
E o lixo do meu coração
Ficou nas curvas do meu rio
E fiquei grato a Deus
 
Minha vida é cheia de curvas
Não reclamo da demora
Cada perda e luta e dor
Limpam as águas do coração
Pois faço a Cristo minha confissão
E sigo pio no leito em paz
Ao encontro do Mar de Deus

VOU DIZER

Paulo Zifum

Vou dizer que estamos no rumo errado. Pelo menos, do jeito errado. Não marchamos. Estamos passeando com o diabo nos olhando. E ele está feliz porque é invisível e nós estamos avariados de defeitos. Somos distraídos e ao mesmo tempo cheios preocupações erradas. O apóstolo Paulo nos falou de uma batalha espiritual e a gente ficando pensando que o inimigo age jogando feitiçaria de teor material. Demos um apagão no Espírito Santo quando inventamos essa atual estrutura de trabalho na igreja. Concordamos muito pouco entre irmãos, mas fazemos um tipo aparente de união. Falamos muito sobre Deus, sobre Jesus, sobre salvação e pecados latentes. Mas, vivemos como os descrentes, com pouca felicidade e bastante preocupação com o futuro imediato. Cada crente chega a passar toda a sua vida bem comportada, e ainda acha que merece uma medalha de fiel. Não somos a primeira geração de cristãos fracos e incautos. Satanás enganou séculos inteiros e manteve a igreja domesticada em vários momentos da história. A opressão do materialismo e a secreta sensação de que Jesus não voltará logo, tem feito os crentes andarem tranquilos, até louvando pela “paz” que sentem. Paz? Isso não é paz. É um retardamento. É uma fuga da realidade. As pregações dos pastores modernos é o melhor que podemos fazer: “Deus te dará vitória”! Vitória sobre o quê, exatamente? Até eu, que escrevo, acho esse discurso muito negativo. É o melhor que posso fazer. Não digo: “todos estão errados e só eu enxergo a verdade”. Mas, que tem algo muito errado com a igreja, isso tem. Estamos no rumo errado e o fato de Deus não ter pressa e deixar passar uma geração inteira como fez com Israel no deserto, devia nos fazer parar e agir de modo imprevisível. Mas, eu já pensei nisso várias vezes: “é melhor não mexer com isso”. E a frase sinistra de Raul Seixas que diz “que eu não sou besta pra tirar onda de herói, sou vacinado” sou cristão, cristão fora da lei, parece ser a cantiga dos crentes de nossos dias. Com exceção de alguns radicais no Brasil e perseguidos em alguns países, a maioria dos crentes só quer viver bem.  Eu, gostaria de pensar mais positivo, mas estou quase convencido de que nossa geração de crentes já era. Seremos medianos beirando a mediocridade, salvo se Deus nos visitar com avivamento. Avivamento. Essa palavra que ouço há muito tempo e sonho conhecer. Enquanto esse evento não vem, o texto de Habacuque é a melhor oração:

Ouvi, Senhor, a tua palavra, e temi; aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia.  Ouvindo-o eu, o meu ventre se comoveu, à sua voz tremeram os meus lábios; entrou a podridão nos meus ossos, e estremeci dentro de mim; no dia da angústia descansarei, quando subir contra o povo que invadirá com suas tropas.” Hb.3.2 e 16

HORA DE SAIR

Paulo Zifum

 

Vem! Vamos embora!

O homem sabe de sua hora

Mas gosta do lugar

E a contração vem

 

Vai! É vento contrário!

O homem sabe seu horário

Mas se ajeita e quer ficar

E o pensamento vem

 

Vai! Deus diz que é agora!

O homem sabe de sua hora

Mas ele luta pra ficar

E a ordem vem

 

Muda o homem de lugar

Pela força

Pelo sonho

Pela mão de Deus

É hora de sair, voar e mudar

 

 

 

CASAMENTO DA CARMELITA

mae e pai

Paulo Zifum

Entrevistada diz:

Vou contar o início da minha história de amor. Conheci um jovem chamado Vicente em nossa cidadezinha de Pedra Corrida. Ele havia chegado de Raul Soares com sua família. Era um magrela, mas muito trabalhador. Minha mãe odiava Vicente e me proibiu de conversar com ele. Mas, parece que eu e ele ficamos mais ligados. Vicente decidiu que casaria comigo e enfrentou a fúria de minha mãe. Eu tinha 17 e Vicente tinha 18 anos. Meu pai gostava de Vicente e resolveu tirar meus documentos para que eu pudesse casar. Imagina! Eu com essa idade não tinha nem registro de casamento! Meu pai, sem minha mãe saber, aumentou minha idade um ano a mais para que tivesse autonomia para casar. A oposição de minha mãe foi tão grande que precisou o delegado da cidade entrar no assunto. Ele chegou a ameaçar prender minha mãe  se ela tentasse me forçar a desistir do casamento. Casamos só no civil diante do juiz de paz e foi feita uma festinha com a família.  Estavam lá meu pai, meus irmãos, o pai de Vicente e seus irmãos e outros compadres e amigos. Mas, a festa foi interrompida, pois minha mãe apareceu com um revolver, fez o sanfoneiro parar e armou um escândalo daqueles.

Vicente comprou um casebre de taipa* com telhado de tábuas. Os móveis eram feitos de caixotes de madeira empilhados. A cama era tarimba (estrado de madeira com colchão de palha, plano e duro. O travesseiro era de taboa. Vicente fez um fogão de barro. O banheiro era bonitinho feito de tábua  e ficava do lado de fora. A pia e o tanque era o córrego ao lado onde se pegava a água que era colocada no pote de barro. A iluminação foi providenciada com o fifó (pequeno lampião de querosene), o problema era a fumaça preta.  Eu tinha 3 panelinhas de ferro, dois pratos de esmalte, duas colheres, um bule de esmalte e duas xícaras. Eu tinha dois vestidos de chita*. Usava um de dia e lavava o outro e enxugava numa corda sobre o fogão para usar no dia seguinte. Eu tinha um tamanco de madeira e couro para ir na cidade. A gente tinha uma mala de canastra para guardar nossas duas mudas de roupa. Com muito custo Vicente pagou uma costureira para fazer duas camisas de serviço. Para ajudar nas despesas, eu comprei um pedaço de tecido riscadinho e desmanchei toda a camisa feita pela costureira e medi pedaço por pedaço. Escondida eu costurei com pontos pequenos. Vicente reclamava da gola torta dizendo que a costureira não tinha costume de errar.

Eu sempre fui uma mulher divertida. Um dia Vicente chegou do trabalho e tirou o cinto e colocou sobre a canastra. O cinto escorregou e ficou parecido com um cobra enrolada com a cabeça pronta para o bote. Esperei anoitecer e com a luz do fifó disse:

-Olha! Uma cobra!

-Nossa! É uma cobra grande! Afasta o fogo que cobra voa no fogo! -disse ele assustado.

Vicente pegou a espingarda e atirou. Como o cinto mexeu,  ele pegou um pau para terminar de matar a “cobra”. Eu ria de chorar. Quando ele percebeu que não era cobra também ficou sabendo que nossa jornada de casamento não passaria sem riso.

Nessa casa simples tive Carmita,  minha primeira filha. Um dia fui até a roça levar a matula de Vicente. Fui num pé e voltei no outro porque tinha deixado a menina que já engatinhava. Quando cheguei deu um grito. Gritei por minha vizinha. Benedita era uma amiga negra que amamentou a Carmita nos primeiros dias de vida. Ela trouxe o marido e ele nos socorreu. Carmita estava segurando no pescoço de uma perigosa jararaca. Ela  estendia a mãozinha e dizia: “toba”. Meu vizinho com muito cuidado espremeu a cobra junto às mãozinhas na menina. Só Deus!

O chão de nossa casa era de terra batida. A poeira estraga a vida de uma dona de casa, então, peguei um caixote de estrume de boi fresco e misturei com cinza de fogão e fiz uma massa, depois passei com a mão no chão da casa toda. Era muita bosta que tinha de juntar (risos)! A massa ficou como um cimento. Eu varria com a muxinga (planta silvestre rasteira, de galhos finos e de folhas miúdas) e ficava orgulhosa porque não levantava poeira. Mas, para melhorar eu passei batinga (barro branco moldável, que serve para esculpir objetos pois fica muito duro) e chão ficou todo branquinho. Demorei um mês para terminar. Esse foi meu primeiro lar!

-Ah! Como eu era feliz! Tão feliz que arrumamos um filho atrás do outro!

Aos 82 anos Carmelita conta e ri.

DICIONÁRIO:

taipa: técnica construtiva vernacular à base de argila (barro) e cascalho empregue com o objectivo de erguer uma parede

chita: tecido de algodão com estampas de cores fortes, geralmente florais, e tramas simples. A estamparia é feita sobre o tecido conhecido como morim

PARA UM BOM ENTENDEDOR

Paulo Zifum

 UM PINGO

UMA LETRA

Ela disse que preciso emagrecer

UM PINGO

UMA LETRA

Eu disse que quero dar uma festa

UM PINGO

UMA LETRA

Ela disse que quer reformar a casa

UM PINGO

UMA LETRA

Eu disse que vou fazer regime

UM PINGO

UMA LETRA

Ela disse que não temos dinheiro

UM PINGO

UMA LETRA

Eu disse que eu mesmo pinto

UM PINGO

UMA LETRA

Ela disse que vai me ajudar

UM PINGO

UMA LETRA

Eu disse que a amo

UM PINGO

UMA LETRA

Ela soltou uma lágrima

Um  1

Escrevi essa letra