CASAMENTO DA CARMELITA

mae e pai

Paulo Zifum

Entrevistada diz:

Vou contar o início da minha história de amor. Conheci um jovem chamado Vicente em nossa cidadezinha de Pedra Corrida. Ele havia chegado de Raul Soares com sua família. Era um magrela, mas muito trabalhador. Minha mãe odiava Vicente e me proibiu de conversar com ele. Mas, parece que eu e ele ficamos mais ligados. Vicente decidiu que casaria comigo e enfrentou a fúria de minha mãe. Eu tinha 17 e Vicente tinha 18 anos. Meu pai gostava de Vicente e resolveu tirar meus documentos para que eu pudesse casar. Imagina! Eu com essa idade não tinha nem registro de casamento! Meu pai, sem minha mãe saber, aumentou minha idade um ano a mais para que tivesse autonomia para casar. A oposição de minha mãe foi tão grande que precisou o delegado da cidade entrar no assunto. Ele chegou a ameaçar prender minha mãe  se ela tentasse me forçar a desistir do casamento. Casamos só no civil diante do juiz de paz e foi feita uma festinha com a família.  Estavam lá meu pai, meus irmãos, o pai de Vicente e seus irmãos e outros compadres e amigos. Mas, a festa foi interrompida, pois minha mãe apareceu com um revolver, fez o sanfoneiro parar e armou um escândalo daqueles.

Vicente comprou um casebre de taipa* com telhado de tábuas. Os móveis eram feitos de caixotes de madeira empilhados. A cama era tarimba (estrado de madeira com colchão de palha, plano e duro. O travesseiro era de taboa. Vicente fez um fogão de barro. O banheiro era bonitinho feito de tábua  e ficava do lado de fora. A pia e o tanque era o córrego ao lado onde se pegava a água que era colocada no pote de barro. A iluminação foi providenciada com o fifó (pequeno lampião de querosene), o problema era a fumaça preta.  Eu tinha 3 panelinhas de ferro, dois pratos de esmalte, duas colheres, um bule de esmalte e duas xícaras. Eu tinha dois vestidos de chita*. Usava um de dia e lavava o outro e enxugava numa corda sobre o fogão para usar no dia seguinte. Eu tinha um tamanco de madeira e couro para ir na cidade. A gente tinha uma mala de canastra para guardar nossas duas mudas de roupa. Com muito custo Vicente pagou uma costureira para fazer duas camisas de serviço. Para ajudar nas despesas, eu comprei um pedaço de tecido riscadinho e desmanchei toda a camisa feita pela costureira e medi pedaço por pedaço. Escondida eu costurei com pontos pequenos. Vicente reclamava da gola torta dizendo que a costureira não tinha costume de errar.

Eu sempre fui uma mulher divertida. Um dia Vicente chegou do trabalho e tirou o cinto e colocou sobre a canastra. O cinto escorregou e ficou parecido com um cobra enrolada com a cabeça pronta para o bote. Esperei anoitecer e com a luz do fifó disse:

-Olha! Uma cobra!

-Nossa! É uma cobra grande! Afasta o fogo que cobra voa no fogo! -disse ele assustado.

Vicente pegou a espingarda e atirou. Como o cinto mexeu,  ele pegou um pau para terminar de matar a “cobra”. Eu ria de chorar. Quando ele percebeu que não era cobra também ficou sabendo que nossa jornada de casamento não passaria sem riso.

Nessa casa simples tive Carmita,  minha primeira filha. Um dia fui até a roça levar a matula de Vicente. Fui num pé e voltei no outro porque tinha deixado a menina que já engatinhava. Quando cheguei deu um grito. Gritei por minha vizinha. Benedita era uma amiga negra que amamentou a Carmita nos primeiros dias de vida. Ela trouxe o marido e ele nos socorreu. Carmita estava segurando no pescoço de uma perigosa jararaca. Ela  estendia a mãozinha e dizia: “toba”. Meu vizinho com muito cuidado espremeu a cobra junto às mãozinhas na menina. Só Deus!

O chão de nossa casa era de terra batida. A poeira estraga a vida de uma dona de casa, então, peguei um caixote de estrume de boi fresco e misturei com cinza de fogão e fiz uma massa, depois passei com a mão no chão da casa toda. Era muita bosta que tinha de juntar (risos)! A massa ficou como um cimento. Eu varria com a muxinga (planta silvestre rasteira, de galhos finos e de folhas miúdas) e ficava orgulhosa porque não levantava poeira. Mas, para melhorar eu passei batinga (barro branco moldável, que serve para esculpir objetos pois fica muito duro) e chão ficou todo branquinho. Demorei um mês para terminar. Esse foi meu primeiro lar!

-Ah! Como eu era feliz! Tão feliz que arrumamos um filho atrás do outro!

Aos 82 anos Carmelita conta e ri.

DICIONÁRIO:

taipa: técnica construtiva vernacular à base de argila (barro) e cascalho empregue com o objectivo de erguer uma parede

chita: tecido de algodão com estampas de cores fortes, geralmente florais, e tramas simples. A estamparia é feita sobre o tecido conhecido como morim

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6 comentários sobre “CASAMENTO DA CARMELITA

  1. Esta é a guerreira Carmelita, a mulher que, mesmo grávida de 8 meses, buscou lenha para o fogão e, quase, por pouco não me matou, mas…. hoje vivo e me orgulho desta guerreira, com excelência
    CARMELITA, minha amada mãozinha.

  2. Uma vida simples mais que deu a ela uma grande experiencia, que nas dificuldades soube tirar alegria, poriso ela é o que é hoje uma mulher com casca como uma grande e velha arvore que o passar dos anos e as diversidades só a fizeram mais forte e com esta força tem sustentado os seus galhos e os mesmos estão dando os seus frutos até hoje. Amo esta mulher verdadeiramente uma guerreira.

  3. Sou fã dessa mulher ímpar! Conta mais histórias pra gente que essas crônicas deixaram água na boca! rs

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