DESILUSÃO DE MARUJO

Texto de Jean Claude Moile

          Sou imediato há tanto tempo. Tantos anos que até enjoei. O balanço das atividades e a voragem dos relacionamentos não cansam um marujo. Mas, enjoei de algo que não é instável. Algo que foi constante em mim, a saber: o ideal. Por anos o mantive, debruçado em mapas, tentando pelos instrumentos de bordo, o sonho de levar o Navio até o porto ideal. Lá, dizia eu, a tripulação será consagrada e, por fim, terá vida integral e plena de significado. Lá, eu serei, recompensado, ainda nessa viagem, por meus esforços de viver sem sair do navio. Muitos subiram e desceram nos portos onde passei. E por momentos quase com todos naufraguei, mas consegui alento e forças para navegar um pouco mais. Porém, agora, embora o mar esteja calmo, as provisões estão escassas. Estou com um grupo de marujos não muito animados, Eu não vejo aquele porto. Não quero mais olhar os mapas. Não quero mais falar com empolgação sobre nossa viagem. Ó Senhor! Perdoa-me por ser tão tolo. Perdoa-me por achar que era o imediato desse fim. Entrego minha tarefa nesse Navio, no meio da viagem. Sei que entende minha frustração. Sei que não foi em vão. Mas, não poderia ser melhor? Parar num porto e abastecer e ver o Navio se encher, de marujos novos e sonhadores? Aqui, no meio do mar, tenho vontade de pular. Entretanto, aceito o que provês a mim. Espero que encoste outro navio e me leve a sonhar de novo. Não queria um resgate e sim uma promoção. Mas, que seja assim Capitão! Devo ter prazer nessa humilhação? Perdoa-me a falta do saber. Falo do que não sei, do que ainda não se deu. Tenho pressa, tenho enjoo, tenho náusea. Tenha paciência comigo Senhor! Ainda lhe serei servo animado e útil. Agora, deixe-me um pouco no porão. Obrigado.

O texto acima foi extraído do livro Mudanças sem Caminhão

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A PORTESIA

Paulo Zifum

“De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.” (Adélia Prado).

A poesia é uma porta. O que tem lá? Quase ninguém quer saber. Palavras molduradas, que tomam o comum e criam arte sutil. Algumas saem de lá e desfilam entre os vazios, mas as mais ricas de lá nunca saem. E quem passa por essa porta? As almas sensíveis ou descuidadas entram e, saem se não forem poetas. Porque poeta não se torna, se nasce. Algumas professorinhas chamam a atenção para a portesia, mas o mundo é tão duro que elas quase não tem sucesso.

Eu entrei e ouvi a esperança para o mundo. O poeta pediu: “Toquem os sinos! Esqueçam seus sacrifícios perfeitos! Há uma rachadura em tudo, mas por ela entrará a luz.” (Leonard Cohen). Eu ouvi meu campanário. Olhei para meus ideais, dei alívio e pausa. Pela rachadura da queda vem o Filho. Não saio mais daqui.

CULPA OU DOLO

Paulo Zifum

  “Como está escrito: “Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” Rm.3.10-12.        

           Existem três tipos de gente no mundo: O que cumpre toda a lei, o que luta para viver dentro da lei e os fora da lei (que vivem e planejam a contravenção). A única pessoa que viveu nesse mundo e cumpriu toda a lei está agora, assentada à destra de Deus. Jesus é o único homem no céu, com o corpo glorificado. Ele cumpriu toda a lei.

          Quando falamos de lei nos referimos às leis de Deus, que emanam de seu caráter, de sua moral e que, estão impressas na consciência humana. Existem dois tipos de infratores da lei: o que fracassa para com ela e o que tem prazer em desobedecê-la. Um é cheio de culpa e o outro é cheio dolo. De uma certa forma todos os pecadores cometem pecados com dolo*, mas a maioria, por temor das consequências evitam viver nessa conduta. Mas, todos os homens estão encerrados na culpa. 

           Incrivelmente, no imaginário de todo ser humano paira uma expectativa de que haverá um juízo final. Há um anseio moral pela justiça, tema esse que cativa milhões de expectadores em torno de notícias e filmes. O ser humano desenvolve um certo prazer pela execução da justiça. Porém, o juízo final habita na alma humana de modo silencioso ou ruidoso, numa desconfiança que de alguma forma seus segredos serão revelados, embora alguns pareçam nada temer, seguros em em sua justiça própria ou na dureza de coração. 

           Ateus e religiosos repartem a mesma condição ante os mistérios. Sempre há espaço para a dúvida. A existência transcende a vida física. No fundo todos desconfiam disso. O que vem depois da morte incomoda a consciência culpada. E isso atinge o humano que é impotente quanto a seu futuro imediato. E todos sabem, embora possam negar, que Deus, é o único que pode oferecer absolvição legal para a culpa e até o dolo. A morte de Jesus antecipou o julgamento final para aqueles que entraram, em vida, na audiência de arrependimento por meio do Evangelho.

          Você entende esse assunto? Entende a gravidade da culpa e dolo? Entende que não pode fazer nada de si para determinar o resultado de seu julgamento? Compreendeu a morte forense de Cristo?      

 *O dolo configura-se quando o agente prevê um resultado, dirigindo sua conduta na busca de realizá-lo. A culpa consciente ocorre quando o agente prevê o resultado, mas espera que ele não ocorra, supondo poder evitá-lo com a sua habilidade. 

O PODER DA MÚSICA

Paulo Zifum

“a música […] pode enobrecer ou corromper o caráter” Boécio

        “A música é dotada de um poder moral e qualquer mudança nas formas musicais provoca mudanças no caráter: sendo o Estado o reflexo da alma, essas mudanças também modificariam a sua estrutura política e social” (Platão, República 424c e Leis 700a- 701b; Filodemo, 1.13; Ateneu 628c)

         A ideia acima se relaciona com o poder moral da música. Ela é capaz de representar diferentes qualidades de caráter, virtudes e vícios (cf. Platão, República 398d 403c; Aristides Quintiliano, 80.25-9). A música é como um raio que procura um ponto de aterramento e Platão defendia que gente de natureza ruim se identifica com música da mesma natureza (Republica 400e). Para ele a música desperta a lascívia ou o refinamento. Pode ser usada para educar o caráter. Diz que a música pode destruir uma sociedade subvertendo bons costumes com infiltração de malícias jamais imaginadas para a época. Afirmava que algumas músicas desviam o ouvinte até deixá-lo sem nenhum vestígio de honestidade ou retidão. Mesmo que Platão, do ponto de vista moral para nós cristãos, não era modelo por causa da pederastia, não errou ao descrever o poder da música.

        Faça um teste em suas músicas:

       Pense em 3 de suas músicas favoritas 

  • Veja se 1 fala sobre alguma virtude 
  • Veja se 1 fala sobre alegria sadia ou euforia
  • Veja se 1 é capaz de trazer quietude, segurança ou esperança

       Tire suas conclusões. A música que apreciamos nos reflete.

TÁ TRISTINHA?

Paulo Zifum            link abaixo, ouça enquanto lê

Olá minha alma?
Notei que o sol não te fez sorrir.
Notei que o culto não te animou.
Notei que voltou para a lista negra. A reler o que não foi feliz.
Não canta mais fora da igreja?
Quando ora só resmunga e não conversa?
Você está triste. E fica muito tempo assim.
Mas, saiba minha alma, o que descobri.
Que a felicidade é pouca sobre a mesa.
Como especialidades caras.
E basta um naco que dura um tempão.
As alegrias são pequenos tesouros.
Não precisamos de grandes quantidades.
Cabem numa caixinha de fósforo.
Se sua busca por alegria não teve sucesso hoje, então chore!
Chore a noite toda! Mas molhe os pés dEle.
Deus lembrará você amanhã onde está o seu tesouro.
Alma tristinha! Amanhã! Confie!

SÓ O NECESSÁRIO

Paulo Zifum

          Abraão recebeu uma proposta de parceria com Deus: sair para uma aventura de recomeçar a vida com 75 anos. Onde? Deus não disse. Abraão foi apenas com o necessário: a benção divina. Foi, sem saber para onde estava indo (Hb.11.8). Depois que teve seu tão sonhado filho  Isaque, Deus ordena que sacrifique o menino. Foi, sem informações e razões. Abraão trabalhava só com o necessário. Sua relação com Deus era do tipo: “primeiro obedecer, depois entender”. Ele demonstrava uma simplicidade que contrastava com sua coragem.

          O ser humano foi criado por Deus e recebeu uma maravilhosa proposta de parceria: gerenciar a Terra e multiplicar a imagem de Deus de modo que o governo fosse distribuído entre os descendentes. A orientação divina era bem simples. Mas, apareceu Satanás e trouxe o extraordinário (Gn.3). E se Adão e Eva foram atraídos pelo espetacular, todos nós, depois deles, já nascemos com a mania de inventar coisa desnecessária para cuidar da vida, do quintal, da casa, dos filhos, do lazer, dos sonhos e por fim , da relação com Deus. Para cada área da vida o ser humano arruma uma “modinha” pra deixar as coisas mais sofisticadas. Provamos isso na incontestável tecnologia que facilita as operações do dia-dia. Ela simplifica a vida e faz sobrar mais tempo para governar e fazer o bem. Porém, os filhos de Eva continuam no “chat da Serpente”, em busca de novidades e adquirindo o extraordinário numa fome insana para poder “sem fronteiras” ir “na frente, sempre”…  …e depois ficarem enrolados pra sempre.

         Tudo que precisamos são orientações simples de Deus para viver bem. Se você acha que sua vida está rodando pesada e não consegue recomeçar de um modo mais simples, aqui vai uns conselhos:

 1-Saia do “Chat do Racker” de Genesis 3     2-Responda para Deus sem culpar ninguém: Mea culpa (locução encontrada no ato de confissão e se aplica nos casos em que a pessoa reconhece os próprios erros)     3.Leia a Bíblia com a ajuda de cristãos que a estudam à procura de Jesus Cristo (ele é o único caminho para a nova vida, a originalmente simples)          4-treine seu coração a obedecer pequenas instruções de leis de trânsito, recomendações domésticas, médicas, paternais, pastorais. 5-coma um pãozinho e doce um pouquinho  6-compre só o que um judeu ou turco compraria.          7-dê tempo só para as pessoas que Deus colocou em sua vida (e isso cada um deve discernir com a ajuda de Deus).   

          Precisamos voltar ao necessário. Ninguém no leito de morte vai gemer porque não comprou aquele carro ou perfume caro. Ninguém vai lamentar porque não ganhou mais grana. Ali, moribunda, forçosamente  a humanidade percebe suas extravagâncias. E, antes que seja tarde, vamos agarrar o necessário. Quem sabe, Deus não nos escale para começar algo totalmente novo?!

*Ouça “O extraordinário é demais” com Baloo, o urso de Mogli (https://www.youtube.com/watch?v=S4J70C36RGU). Os conselhos de vagabundos não são confiáveis, mas são como relógio parado, estão certos pelo menos duas vezes. 

Veja também a Serpente hipnotizando Mogli (https://www.youtube.com/watch?v=_YUY87lK_t0). É muito difícil escapar da vaidade dessa vida e viver de modo simples, mas há escape para quem anda com outros cristãos.