REDES TRISTES

redes trsites *O último post do ano! Como os poetas são um pouco tristinhos, não se engane. Leia até o fim, inclusive o resto. Foi bom navegar com você em 174 postagens de Teologia, Poesia e Filosofia com 3767 visualizações. Paulo Zifum

Redes sem peixes
São de esperança
De manhã cedo nas mãos do pescador
Brilham ao sol e mergulham
Nas águas, entre cardumes invisíveis
E o homem acorda sempre para o mar
Impelido a pescar
Beleza, riqueza, nobreza
Verdade e bondade
E até maldade
Cardumes de sonhos
A rede é tudo
E seu brilho é reino no mar
E qual é esse que não quer pescar?
Impelido a amar
Na pesca maravilhosa do amor
Do casamento, da paternidade,
Da felicidade de cardumes de amigos
E o homem sobe no barco
Impelido por sua fome
De peixe, pão e poder
Na voragem, escabelo do mundo
Só falta morrer
Mas a rede é tudo
Lançada forte, espalma na prata
Onde está a beleza, riqueza e nobreza?
Onde está o amor e o sentido da existência
Aqui! Alí! Acolá!
Vai o homem noite adentro a pescar
Assustado e cansado
E a rede ainda é tudo
E o brilho fraco espalma no ouro
E o homem no mar, de fome
Pergunta de que valeu essa luta
Sem nada apanhar, com as mãos geladas
Olha para a rede e chora
Vazia e suja, não é mais tudo
Sem brilho, embaraça nas mãos
Redes sem peixes
Não trazem esperança
De noite nas mãos do pescador
Pesam no ar e caem
No fundo do barco, abatidas
E o pescador dá as costas ao mar
E se divide como homem
Se para ou continua
Segura suas redes tristes
E decide ali sua vida

Leia o Evangelho de Lucas cap.5. Ouça também a poesia cantada abaixo. Feliz 2015!

Anúncios

ONDE ESTÁ DEUS NOS ACIDENTES DE CARRO?

Estrada com carro só

Paulo Zifum

Morremos todos os dias em acidentes de carro. Morrem filhos, pais, casais, irmãos, pessoas famosas ou apenas amadas. Morrem homens religiosos e céticos, bons e maus, gente prudente e irresponsável.

E a morte súbita num acidente de carro gera perguntas religiosas: Onde está a tal proteção divina com seus anjos? Por que o Céu não nos livra dessas tragédias que desestabilizam a família?

Se você está lendo este texto é porque esse assunto te faz sofrer e necessita de resposta. E imagino que,  talvez esteja sentindo o mesmo que senti quando recebi a notícia da morte súbita de uma pessoa muito amada. Eu estava em casa vendo um filme quando chegou-me a notícia de que um carro capotou na pista do outro lado, atravessou o robusto canteiro central de 20 metros, invadiu a pista e atingiu o carro onde meu irmão estava. Ele não resistiu. O motorista que capotou teve pequenas fraturas.

Fiquei triste com Deus, pois Ele poderia desviar o maldito carro. Então, um conflito surgiu e passei a lutar com uma mágoa irracional que queria pegar carona em minha dor. Por que coisas ruins como essa nos acontece?

Subir num carro significa risco. A estrada tem variantes que um ser humano, mesmo prudente, não pode prever. Nossa raça se alcooliza. Motoristas dirigem sob condições de euforia ou estresse e essas condições podem fazer correr ou esquecer as regras de segurança. Muitos condutores não cuidam da manutenção do veículo. Estamos juntos como humanidade sofrendo os efeitos colaterais do progresso tecnológico e da negligência.

Sinto vontade de culpar a Deus, porque, no fundo, acho que Ele deveria sempre nos livrar do risco que decidimos correr e seus anjos comissionados deveriam sempre nos fazer chegar ao destino escolhido. Porém, esse pensamento não parece razoável.

Nunca saberemos quantas vezes “morremos” no trânsito. A vida em velocidade nos expõe e, só não morremos em todas as saídas porque há proteção divina. Mas, não passa por nossa cabeça a possibilidade de que nossa “cobertura de livramento” pode expirar a qualquer momento sem aviso? Estamos sujeitos a um fim súbito e trágico, seja num carro em movimento ou sentados no sofá em casa.

Entretanto…

Reconhecer a finitude e aceitar a responsabilidade de que viajar de carro é um risco, não muda a desorientação causada por um acidente de carro. Nossa vida fica desestabilizada com a perda de cônjuges, filhos, parentes e amigos.

Uma voz revoltosa dentro de nós grita: Onde está Deus?

O coração alquebrado precisa voltar-se para o Senhor, mesmo que seja para bater no peito dEle e reclamar a dor dessa vida sem sentido. E só quem viveu essa fraqueza pode entender quando a fé se abala.

Depois de chorar e brigar com o Céu, aquiesci. Deixei as perguntas e comecei a aceitar o abandono do sol. Entrei na noite escura e passei a repensar que minha visão sobre Deus está um pouco distorcida. Por que acharia que nenhum mal chegaria a mim? Lembrei de Jó e lamentei não ter frequentado a mesma escola teológica . Ele recebeu a notícia de que todos os seus filhos morreram no mesmo acidente, e embora abalado e aturdido, não se rebelou nem perdeu sua fé.

Fiz, então uma oração: “Senhor! A tristeza é maior que minha fé e não consigo compreender. Perdoe-me porque não vejo sentido em nada. Perdoe-me porque sinto mágoa. Não me deixe perder a fé em teu amor, embora sinta um corte de abandono. Se essa experiência vai me levar para mais perto de Ti, dá-me força para não desistir de crer. Enviaste teu amado filho Jesus para morrer de modo trágico pelos meus pecados. E são nossos pecados que geram toda a dor que existe nesse mundo. Isso não posso esquecer e não devo exigir que o Senhor dê a mim mais provas de amor com livramentos de acidentes. Ampare minha família e todos os que sofrem na dor dos acidentes de carro. Carregue-nos em teu colo. Amém.”

 

 

COLCHA DE NATAL

nascimento (1)

Paulo Zifum

Todos sabem que Jesus nasceu pobre

Em sua família ninguém era nobre

É o divino jeito de costurar a História

Uma colcha pra Sua glória

Ele escolhe trapinhos sem valor

E os costura com amor

 

Veja a Bíblia, é uma colcha

Toda de retalho humano

Se não fossem costurados

Não seriam nem notados

Sem a fé dada por Deus

 

Abraão sem fé seria um trapinho lá de Ur

E Jacó sem fé seria  toda vida enganado

E Judá sem fé seria triste homem derrotado

Mas a fé os costurou no que Deus faria então

Uma história inusitada, de amor e redenção

 

Com retalhos pecadores

Gente de passado ruim

Deus nos surpreende assim

Raabe escolhida

Nos ensina uma lição

Para Deus agir no homem,

Da excelência abre mão

 

E a colcha foi tecendo

Ó profundidade da riqueza

e da sabedoria de Deus

 

Vejam todos! Que escandalo!

Os parentes de Jesus!

Mentirosos, Assassinos,

Imorais, Gente sem luz

Mas o Espírito deu-lhes fé,

semelhante a de Abraão

E juntando os retalhos

dessa gente em confusão

Que nos veio a salvação

 

E foi do ventre de Maria

Que um retalho se nos deu

Tão humano, indefeso

Um menino nos nasceu

E o mundo não pode entender

O que o bebê viria a ser

Mistério de ouro e pano

Retalho divino-humano

 

E Jesus foi costurado na linhagem de seus pais

Mentirosos, assassinos, pecadores imorais

Deus teceu o improvável

Dessa gente em confusão

O que ninguém esperava,

O impossível fez então

Uma Colcha perdoada

Por sua graça e mais nada

 

Esse manto de retalhos

De trapinhos e pedaços

Nunca cessa de crescer

Pela beleza e graça de Cristo

Hoje, Ele chama até você

 

Venha, pedacinho

Deixe que Ele o costure

A SOPA

dieta-da-sopa-receitas

Paulo Zifum

Muito obrigada. Você tem sido muito gentil –disse a cliente para sua costureira

Eu? Você é que tem sido muito amorosa –respondeu Lia, completando –Lembra quando fiquei doente e você me trouxe uma sopa? Nunca esquecerei. Quando olhei para os legumes cortados e cubinhos pequenos, fiquei emocionada. Minha vida agitada com casa, trabalho e filhos, não permitia fazer uma sopa assim. Sempre joguei cenouras e batatas quase inteiras, sempre correndo. Muito obrigado pelo carinho.

O costume de levar um prato de comida, de modo voluntário, é um gesto lindo. Diversos momentos, pessoas pobres ou ricas, precisam desse gesto. Comer algo preparado ou comprado por alguém que pensou em você é especial. Seja um panetone, uma fruta, um pedaço de torta, uma sopa ou um resto de bolo, é precioso. A pessoa aparece com aquela carinha de anjo e diz: lembrei-me de você! Não tem preço!

Você pode comprar, mandar fazer e buscar, porém, nada pode ser comparado com a beleza de receber um pedaço de amor. Depois que comemos, ficamos ali, pensando no momento em que alguém lembrou de nós, imaginamos o processo de fazer, embrulhar e trazer um pouco de comida. E fica mais cativante quando é uma coisa simples, como guardar um pedaço de pizza ou um bombom. A humanidade ainda tem lampejos de seu estado original. Como diria Calvino: “é a graça comum”.  A prática dessa bondade quebra o mundo duro e surpreende nossos corações carentes de valores que não sejam materiais.

ZIFUM DISSE

Paulo Zifum Eu, contra a prosperidade? Deus me livre! Seria um reducionismo tão tacanho quanto. Mas, há uma elite de clérigos evangélicos no Brasil que parece encantada com o tema. O tema é antigo, mas parece que agora é que a alma emergente do brasileiro está se conectando. Arregimentados pelo “kit PPP”*, os evangélicos estão motivados, sem, contudo, perceber a rede em que estão caindo. Os cristãos cujos valores são superiores ao “kit PPP” são destemidos em evangelizar e canalizar seus recursos para o Reino. A paz que excede o entendimento guarda a liberdade individual. A ideia de que o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça orienta a acumular tesouros no céu. O cristão assim é realmente livre. O conhecimento da verdade sobre a paz e a prosperidade muda o rumo de tudo. O comportamento de um cristão com relação às convenções de que não pode pregar ou ensinar isso ou aquilo pode ser exemplificado na resposta de Pedro ao Sinédrio, mais importa obedecer a Deus que aos homens. A perspectiva de Paulo sobre possuir mostrava que o valor do cristão não pode ser reduzido a ter o máximo de riqueza, cada vez mais. Especificamente, a ordem: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho envolve sacrifícios da paz pessoal. Ficar em paz e não ser incomodado não é uma opção para os cristãos, mas parece que muitos crentes estão intencionalmente evitando despertar a rejeição dos não crentes. Isso não preocupa? *kit PPP: Paz Pessoal e Prosperidade

SCHAEFFER DISSE -parte 2

Paulo Zifum

Schaeffer levanta em seu livro Como Viveremos a questão de determinados tipos de submissão que reduzem o ser humano a um estado irracional. Todos nos submetemos a coisas rasteiras nesse mundo. O intelectual mais douto até o homem de temperamento mais rude e indomável pode decidir submeter-se a condições insanas. E quanto mais longe de Deus uma pessoa se encontra,  entregará com mais facilidade sua liberdade por causa do teor de nossos valores.

Os filmes de heróis americanos disseminam a ideia de que a humanidade corre perigo e que a paz e a prosperidade precisam ser preservadas por uma elite, seja um herói ou um setor especializado do governo. Esse apelo pressiona as pessoas a estarem predispostas a entregar sua liberdade em troca de paz pessoal. A paz que uma elite defende, segundo os anais da História, pode estar má intencionada em sua origem ou em seu curso. As coisas podem começar bem como o sonho da Republica de Platão, mas, alienada de Deus, termina em manipulação e corrupção. E a busca por paz a todo custo levará a todos nós a um reducionismo.

O cristão corre o risco de ser arrastado pela rede social e estar vivendo uma “vida horrivelmente secular” como disse Henry Nowen. E o resultado dos cristãos serem sequestrados nessa cosmovisão é a ausência da beleza e vida abundante prometida por Jesus. O apóstolo Paulo sempre alertou da possibilidade dos cristãos caírem num estilo de vida pagão. Em outras eras a Igreja negligenciou a obra missionária, perdendo seu tom de urgência e prioridade, e Nowen nos alerta que “conspiramos com o mundo escuro”.

O que você acha?