FICO SÃO JOSÉ PENSANDO

Paulo Zifum

Quando cheguei em São José do Vale do Rio Preto eu fiquei pensando. Isso mesmo! Eu fiquei. Antes na cidade, em São Paulo, diria eu: “fui pensando”. Agora, fico mesmo.

Aqui os caminhões de ração das granjas espalham os grãos pela estradinha. Dezenas de Canarinhos da Terra fecham o caminho exigindo que eu reduza a velocidade. Eu fico pensando enquanto desacelero e assisto a revoada amarela de pássaros.

Num dia desses, uns moleques de bicicleta corriam atrás de cinco filhotes de cavalo. Eles riam enquanto eu ficava pensando. Desvio dos sapos que são muitos. E paro para tirar galhos do caminho. Espero famílias de capivaras passarem, e demoram porque antes de saírem dão aquela olhadinha como quem manda um “oi”. Nada de pressa na roça.

Dou carona para idosos quase todos os dias ao subir e descer um serrinha da minha humilde residência. A conversa com eles é cheia de gratidão.

Fico pensando na vida. O trinca ferro canta o dia todo. O Sabiá Laranjeira escolheu minha varanda para fazer um ninho digno de sua majestade, enquanto o meu garnizé Kim e sua companheira Dim disputam com minha esposa uma área de serviço. As Maritacas? Que beleza! Comem tudo, até os fios de energia. Tenho um pequeno lago no quintal e a água do poço tem sido generosa.

Eu fico assim, em São José. Convidei a vizinhança para chegar lá em casa e cinco famílias vieram. Cada uma trouxe um quitute para comer conosco, mesmo eu sendo um completo estranho. Porém nunca me senti assim.

Na capela do templo José Vicente nos reunimos para orar. A ternura do momento em que fazemos os agradecimentos me faz pensar na chuva, na melhora de saúde, na conclusão de um curso, na laje recém-colocada, na aposentadoria conquistada, no aniversário de mais um neto, no livramento da estrada.

As estações das frutas e flores falam assim: Cuidamos de você! E eu encho sacolas de caqui, amora, jabuticaba, mexerica, acerola, laranja campista, lichia, conde, graviola, nozes e abiu.

As casinhas de torra de café enchem de cheiro meu pensamento, que fica “são joseando”. Sigo pelas estradinhas da cidade que tem que mais curvas que carros. E, diga-se de passagem, segundo a lei do Estado, todo o município aqui é área rural. Não tem perímetro urbano. O centro da cidade é bem discreto, mas muito movimentado na hora de pico em seus 300 metros de efervescência. Tem cavalgadas, que fazem passeios muito bonitos. E ainda é comum encontrar armações para amarrar cavalos frente aos botecos.

O povo da cidade e dócil e falante. Uma mistura de sucesso de italianos, mineiros e cariocas. E gente como eu que vem de outras regiões aprende fácil a amar esse povo.

O Rio Preto? Passa todos os dias pela cidade. Ele já passou sem dó uma vez em 2011. Mas não é do feitio dele levar nada além de peixes e algumas coisinha sujas das quais tenho vergonha de falar. A gente não e muito legal com ele. Eu o vejo da Ponte Preta e fico pensando nessas coisas.

Espero passar um pouco a chuvarada e volto à noitinha para casa. Normalmente, depois da ventania, meu bairro São Lourenço fica sem luz. Nunca acendi tanta vela. No escuro, ligamos o gerador e esperamos voltar a energia. Quando não tem jeito, desligamos o motor e vamos dormir. Com o piado das rãs e os martelos dos cururus, o sono é doce. E seria longo se meu galo desregulado não me acordasse 4.30h. Mas, depois que, carinhosamente, ataco nele meu sapato, posso continuar dormindo e pensando em tudo isso.

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3 comentários sobre “FICO SÃO JOSÉ PENSANDO

  1. To quase indo morar por estas bandas, meu marido anda procurando exatamente este clima que reina por aí, quanto ao sabiá e ao galo, conheço uma pessoinha querida que ia simplesmente amar.

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