DESCOBRIR IRMÃOS

LEITE ESCADA

* Creuza não está nessa foto. Da esquerda para direita: Lia, Lúcia, Jucélia, Carmita, Luiz de óculos, Francisco, Hércules, Jucelmo e Juscelino.

Paulo Zifum

Fui descobrindo meus irmãos à medida que eu crescia. Viver numa família grande é assim: você não quem é quem. Os filhos mais novos vão de colo em colo, soluçar os cuidados dos mais desocupados. Meus cabelos despenteados estavam sempre porque todos esfregavam ao passarem por mim. Via gente entrar e sair, gente de cabelo bom e sarará, gente bem arrumada e com pano na cabeça. Via gente chorando, ouvia brigas e quando pensava que eu estava entendendo a família, apareciam os namorados e minha cabeça de criança, dava um nó.

Sou o décimo de onze irmãos. Morávamos no subúrbio de Pirituba, bairro da capital de São Paulo. Meu pai precisou alugar duas casas para abrigar sua grande prole. Era uma confusão de gente. E para aumentar a festa, minhas sobrinhas vieram morar uns tempos conosco e um tio de Minas Gerais também arrumou um cantinho. Tenho saudosa lembrança do Tio Nelson.

Via o Francisco trabalhar naquilo que ele chamava de “garimpo”. Ele convencia as pessoas a trocar ouro por ursos de pelúcia, relógios de gesso e abajur de vidro. Eu ficava fascinado com os produtos daquele “escambo duvidoso”. Fio (apelido) tinha um fusca e estava sempre feliz da vida.

A Lia (Maria de Lourdes) tirava-me as dores de dente contanto histórias e ninando. Lembro-me dela derramando um vidrinho chamado Minuto na minha boca. A promessa de que em minutos uma dor de dente sumiria era verdade porque a boca ficava em chamas e a gente esquecia o dente. Que beleza!

A Lúcia fazia serviço completo de banho, tosa e tirar piolhos, sem contar o lanche na cama com hum suco direito e televisão. Era um anjo. Minha mãe tinha nela incrível apoio. Lúcia gostava do carnaval. Era recatada, mas essa festa a deixava um pouco eufórica. Saia com uma amiga chamada Tetê, eu acho.

Luiz me mostrava o mundo da arte com seus desenhos e musicas com seu violão. Eu gostava de seus amigos bêbados (Jonas e Almir). Ele me levou pela primeira vez no cinema para ver Bernardo e Bianca. Ele me ensinou a desenhar e eu passei a copiar cédulas de dinheiro. Ele compunha musicas e me chamava para mostrar. Eu acho que ele via meu olhar fascinado.

Com Creuza (morena lindíssima) convivi pouco porque saiu cedo de casa. Eu ficava com ela enquanto namorava. Ela me chamava de “baixinho”. Quer dizer, todos me chamavam assim.

Hércules vi poucas vezes, mas me lembro de um nome, uma empresa chamada Excelsior. Ele estudava para contador.

Jucélia era chorona, diziam meus outros irmãos. Branquela, tinha uma birra comigo. Ela e os outros irmãos me irritavam para ver-me simular o Incrível Hulk. Eu ficava vermelho de raiva forçando o sangue no rosto. Gostava de virar atração.

Carmita era a irmã mais velha. Dela só sabia que roubava as fotos da família. Tudo quanto era foto que achava, surrupiava. Era a irmã que morava mais longe e nos víamos pouco. Isso explica os furtos dos álbuns.

Jucelmo era o bebê, o caçula. Esse eu demorei mais para conhecer. E a lembrança que tenho dele foi porque, pela primeira vez, vi um menino vampiro. Eu assustei quando vi só os caninos do pimpolho depois de um acidente no parque de diversões.

Juscelino. Pensa numa criatura mansa. Pensa numa pessoa de natureza calma. Recebeu “doses vicentinas” de temperamento e não pegou as “essências carmelitanas”. Conheci o Juça quando ele empinava pipa e chegava em casa com os olhos esbugalhados de vermelhidão. O dia inteiro olhando para o céu, tentando superar seu maior rival, o Jhonson, que cortava todas as pipas do céu de Pirituba. Juscelino, de tanto olhar para o céu, caiu de um barranco e quebrou a ponta do dente. Eu ficava sabendo dessas coisas com 7 anos.

Fui descobrindo meus irmãos. Fui conhecendo minha riqueza na terra. Graças a Deus, ainda hoje posso estar com eles e “prosseguir em conhecê-los”. São pessoas especiais. Um mix de meus pais.

Alguns, infelizmente, passam a  vida inteira sem seus irmãos, sem abraçar, conviver e desfrutar deles. E é uma pena! Felizes os que podem conhecer e compreender a seus irmãos. Agradeço a Deus por essa experiência.

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