DEUS NÃO TEM PRESSA

Paulo Zifum

A Bíblia fala sobre Deus. Uma das características destacadas é que Ele não tem pressa. Essa afobação é típica do homem preso ao tempo. Traídos por nossa limitação de visão do futuro, corremos muito, pegando coisas, filhos e amores, na tentativa de colocar tudo em segurança. Porém, a vida é como filme de suspense: depois de correr e achar um lugar seguro, a instabilidade surge exatamente ali.

Deus não tem pressa. Ele cria o mundo em seis dias ou seis mil anos (depende de 2Pe.2.8), quando podia cria-lo em segundos. Mas, a pressa não tem poesia e tira a beleza do processo. Deus cria o homem de modo lento e depois cria a mulher de modo mais lento ainda. Ele espera Noé construir uma arca  e espera um século para mandar o dilúvio. Ele espera Abraão ficar velho para dar a ele uma missão e faz o mesmo com Moisés. Os processos de desenvolvimento de uma pessoa são acompanhados por Deus sem pressa porque Ele sabe o tempo necessário entre a partida e a chegada. Deus, como motorista da história é tranquilo e seguro, mesmo que o congestionamento seja do tamanho do Era das Trevas. Deus não fica aflito quando as pessoas não querem contribuir nem quando os adoradores mudam para o time adversário. Ele, o Senhor do Tempo, supervisiona tudo.

Eu, tenho pressa. Fico aflito e corro demais. Com a língua pra fora e o coração batendo a mil, tento impedir que algo estrague, atrase ou se perca. Ele olha pra mim com aquele olhar lançado sobre Marta e diz: Pra quê isso tudo? Aquiete-se! Descansa um pouco. Os que esperam em mim renovam suas forças. Eu estou trabalhando enquanto você dorme.

É. Ele não tem pressa, mesmo!

Anúncios

O QUE VOCÊ FAZ SENTIDO

Paulo Zifum

Falo com as plantas e com os cachorros. Perdi meu carrinho cheio de compras no mercado. Fazer uma compra econômica dá trabalho. Encontrei um amigo e notei que ele tinha no carrinho as mesmas coisas. Contei a ele do sumiço. Ele riu e disse que tinha inveja das compras que fiz, mas que nenhuma câmera o filmou porque é como um gato.

Costumo escrever agradecimentos para as pessoas. Acho que sou afortunado por alguém arrumar algo quebrado das minhas coisas. Depois de pagar o serviço fico feliz por essa rede de favores. Ajudar sapos a voltar para lagoa parece coisa de gente muito infantil. Falar bem das pessoas é uma maneira de fugir do mal.

Coloquei creme de barbear dentro do tubo de creme dental de um amigo. Minha amiga ofereceu-me uma colher de chá de algo delicioso que estava fazendo. Até hoje minha boca queima como o Hades. Ela ri eternamente. Eu deixei a gasolina do carro acabar várias vezes. Nunca me privei da aventura de ver até onde daria. Uma semana após andar a cavalo descobri que não tinha uma nova verruga. A coisinha tinha perninhas bem miudinhas.

Voltei para casa algumas vezes a pé, só com a chave do carro no bolso. Parece até que a gente voa quando começa pensar. Minha esposa muda tanto as coisas da casa de lugar que nunca terei Alzheimer. Paro para olhar flores e cato trecos na rua. Ferro velho, bazar e brechó são como shopping. Tem tudo que eu procuro.

Ainda sinto culpa por ser preguiçoso e por trabalhar demais. Por que não posso tomar mais de uma garrafinha de Yakult? Tenho vergonha de pensar que Deus riu quando o pernilongo surgiu. Um amigo diz que meus textos não são bem trabalhados. Eu disse que tenho preguiça de arrumar porque passo horas escrevendo.

Eu agradeço por você estar lendo e fico também sem graça por torrar seu tempo. Eu sou um embaraço. Mas, isso não faz sentido.

NARUTO CRENTE

Paulo Zifum

Não ocorre sempre. Dentre milhares de homens que nascem, poucos são realmente guerreiros. Quem já assistiu o desenho japonês Naruto pôde conhecer como é a alma de grandes guerreiros. Funcionam fora da curva e lidam com o medo de modo diferente da maioria dos mortais.

Naruto é um personagem imerso no imaginário da cultura oriental, onde os poderes emanam dos espíritos ancestrais e ordens espirituais impessoais.

Se eu fosse inventar um Naturo Crente eu falaria dos poderes procedentes da unção de Deus. O chamaria de Davi, daria um amigo para ele chamado Sansão e um sansei chamado Elias e o meteria em todas as confusões de guerra do Antigo Testamento. E não faltariam inimigos e vilas para defender.

O que mais gosto no Naruto é seu esforço para entender a “unção”. E ele é recompensado em sua busca. Notei que sua dedicação para fazer algo importante é muito reveladora (motivação secreta dos guerreiros). Se auto-afirmar é tão humano!

Identifico-me também com as crises que passa na procura de sua identidade. Mas o que mais gosto é sua loucura e rompantes de coragem. Sempre achei que os homens muito prudentes, cuidadosos demais, não abrem os caminhos mais importantes. Os maluquinhos vão, pulam e voam. A unção é algo inexplicável.

Conheço alguns “Narutos Crentes” na vida real. São meus favoritos.

 

APANHEI MUITO

apanhei

Paulo Zifum

Mamãe não passou açúcar em mim. Apanhei muito. Ainda hoje fico pensando, que eu era levado, só podia. Era surra todo dia. Puxão de orelha, muitos. Cintadas e chineladas, várias. Vara de diversos tipos faziam marcas mágicas. Minha fada sabia como transformar crianças.

Apanhava sem nem saber o porquê. Mas minha juíza da vara da infância e da juventude tinha caráter e sabia os porquês. Eu tinha culpa. Era traquino e as maldades misturavam-se com a ociosidade de criança criativa e pecadora.

Apanhei muito. Ó santa justiça! Impunidade não era uma palavra que existia no governo de mamãe. E quando o magistrado não sabia o autor do feito, reunia todos os possíveis culpados e prescrevia a pena para a quadrilha toda. Sua mão pequena ligeira certeira ardia onde podia nos lombos dos dez réus que trouxe ao mundo.

Apanhei pra caramba, por mim e por meus irmãos!

“Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá. Tu a fustigarás com a vara, e livrarás a sua alma do inferno” Pv.23.13-14