A PERGUNTA QUE ELE FEZ

Paulo Zifum

Jesus fez perguntas importantes que foram registradas. Dentre todas, uma chama à atenção porque foi repetida três vezes para a mesma pessoa: –Simão, filho de João, tu me amas mais que estes? (Jo.21.15)

Fiquei pensando na razão dessa pergunta tão afiada. O Senhor nunca insistia dessa forma. Era incomum. Não era seu costume constranger, porém, dessa vez foi desconcertante. E o fez, não porque tinha dúvida do amor desse discípulo recém-fracassado, mas dentro de um contexto e propósito medicinal. Jesus estava fazendo uma delicada cirurgia naquele discípulo. Quantas coisas foram tratadas alí!

Pedro havia sido escolhido para ser o líder do grupo, aparentemente porque era pró-ativo e muito corajoso. Entretanto, a razão pela qual Jesus o colocou à frente da missão não estava relacionada ao desempenho ou produtividade, coisa que Pedro parecia estar apegado. Jesus queria que Pedro deixasse a compulsão de estar sempre provando que era capaz, que era dedicado.

A pergunta era o último teste para um líder. Pedro deveria abandonar a preocupação de querer impressionar o Senhor e comparar-se com os outros. E parece que conseguiu pela resposta que deu: -Senhor, tu sabes que te amo. Não se arrogou como de outras vezes, antes confiou no julgamento do Senhor, dizendo:-Quem pode avaliar a sinceridade e o tamanho de um amor? O Senhor é quem sabe quem são os que te amam e o quanto amam.

O que Pedro talvez não esperava foi ter de repetir sua resposta por três vezes. É como se o Senhor estivesse dizendo: –Pedro, aprenda essa lição. Repita! Não o escolhi para me substituir porque você é forte ou corajoso, mas porque sei que você me ama. Mesmo que tenha falhado, sei que me ama. Quando chorou depois de me negar, era por me amar. Ainda que tenha um amor inconstante, sei que você me ama.

Acho que Pedro passou a ter paz ao descansar na resposta “Senhor, tu sabes“.

A vida entre cristãos gera disputas e comparações (veladas ou escancaradas). Os fracassos fazem perder a confiança. Se só nos sentimos seguros quando fazemos a coisa certa, então, tudo será muito tenso.

Quando Ele pergunta: -Você me ama mais que seus outros irmãos? O que ele está querendo ensinar é que a resposta não está totalmente conosco. Nossa perfomance  pode ser a melhor e ainda assim não ser suficiente como prova. Nosso desempenho pode ser baixo e ainda assim podemos amar o Senhor de um modo que só Ele sabe.

Podemos ter paz, aceitar e admirar pessoas que amam a Jesus muito mais. E Pedro estaria inapto para apascentar (acalmar) ovelhas sem essa paz. A liderança espiritual pede que os guias não arremetam seus liderados a uma vida baseada no mérito, mas na graça.

Pedro se saiu bem, embora tenha ficado um pouco triste, mas isso também faz parte.

 

 

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MEU PÉ DE CAQUI

Paulo Zifum

Quando mudei para minha casa nova em São José do Vale do Rio Preto, região serrana do Rio de Janeiro, fui surpreendido. Havia escolhido a casa por sua beleza e área verde, mas não tinha notado as árvores do quintal. Depois de desfazer a mudança comecei a notar o estouro das frutas. E quais eram? Caprichosamente, as minhas frutas preferidas.

Eu olhei para o céu desconfiado, e disse: -Isso é coisa do Senhor, né?

Você já teve experiência de chegar num lugar em sua homenagem? No ar, as músicas que você gosta, na recepção, os amigos que te amam, na mesa, suas comidas preferidas. Foi assim que me senti. Eu não pude dizer: -Olha! O senhorio da casa tem os mesmos gostos! Quando eu vi os pomos da Fruta do Conde e o pé de Lichia, eu me encantei. Mas, foi o pé de Caqui que me fez olhar para o céu.

Engordei um quilo na temporada do Caqui. Uma dieta de três caquis de manhã, quatro após o almoço, dois à tarde e, à noite, perdi a conta. Até no banheiro a textura do trabalho de confeiteiro lembrava a fruta. Que beleza!

Agradeço ao Senhor Deus que nos dá infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos. Pena que os céticos levem a vida assim tão dura e sem poesia, atribuindo tudo ao acaso. Incapazes de ver que há um Deus bondoso que faz os pássaros soltarem cocôzinhos cheios de sementinhas selecionadas que fecundam flores e frutos.

Sim, eu acredito nisso! Acredito que o Amor é uma pessoa! Acredito que minha relação com Ele é real, não invenção do imaginário religioso, mas uma bondade materializada em coisas como café, xícara e o sorriso da esposa amada. Você também é capaz de notar esses mimos ao redor de sua vida, mesmo que seja dura?

Estou aguardando os caquis ficarem maduros e dou uma olhadinha para o céu e repito: -O Senhor, hein!

*Caqui: Rico em betacaroteno, que atua como antioxidante e combate a formação de radicais livres. Cheio de vitamina A, é essencial para a visão, unhas e cabelos e auxilia o desenvolvimento ósseo. Fonte de licopeno, um fitoquímico com importante atuação na defesa do organismo. Contribui para o bom funcionamento do intestino, por conter fibras, e atua como calmante, devido à alta concentração de açúcar e frutos. 

 

SOMOS UNS BOCÓS

 

escreve caca

Paulo Zifum

Não brincar para não se sujar. Fazer esforço suicida para não parecer tolo ou ridículo. Trabalhar para comprar até não ter mais tempo para conversar na praça. Andar rápido no metrô, no trânsito para não chegar atrasado, sem perceber que está sempre quase. Sempre, até para ir à igreja e ao aniversário. E tudo acaba se resumindo em mais velocidade e estética. Coisas que o tempo levará feito um ladrãozinho, junto com toda ostentação boba. E se ele fosse uma pessoa, apareceria no velório e diria: Seu trouxa!

Uma mãe disse que deu tantas aulas como professora que não viu seus filhos crescerem. Um médico deu tantos plantões que não percebeu que havia se tornado um grande cirurgião divorciado e recasado com a segunda opção inferior. Não vale de nada férias no Havaí quando não se consegue a afeição sincera dos filhos. Um pastor prega muito bem e recebe elogios, mas não tem nada interessante para fazer em casa. Um filho tem pais maravilhosos, mas passa a maior parte do tempo doméstico num computador desgraçado (termo usado para algo que não produz vantagens da bondade). Um patrão que tem como pagar melhor os funcionários que se esforçam, mas prefere reter o dinheiro porque está se precavendo para as crises financeiras. Bocó! Não vai viver melhor retendo a alegria do outro!

Ninguém consegue ser feliz vivendo tenso. O ambiente em casa é tenso, o trabalho é tenso, a igreja é tensa, até a festa é tensa. As preocupações? São ridículas! E o pior é que nos esforçamos para manter esse… esse… como poderíamos dizer… essa… essa…

Bem, as palavras exatas são muito chatas.

Vamos olhar no espelho e sermos sinceros: A vida assim é um grande desperdício. Eu, às vezes, acho que a turma que fica cantando desafinado no karaokê do boteco vizinho, tá fazendo algo decente. Não que seja producente. E esse negócio de tentar justificar tudo pode parecer bem coerente, mas no fundo é coisa de gente doente.

Queria muito deixar de ser assim. Queria mesmo comprar um balãozinho caro de gás só para soltar no céu azul, mas, não consigo. Levo pra casa e fico brincando de soltar no teto da sala. Por que sempre, sempre evito me molhar na chuva? Depois que virei bocó, nunca mais nadei pelado. A última vez foi na bacia segurado por mamãe. É coisa de filme deixar a roupa na areia e correr o risco de aparecer alguém e roubar as indumentárias.

E esse negócio de tomar cuidado para evitar roubos, torna as pessoas tão… tão… cuidadosas. É tanto cuidado que surge a dúvida se vale a pena ter um bem tão perigoso. O riqueza inspira os ladrões e as seguradoras. Os bocós? Estão entre os dois.

Cantar mais, rir mais, brincar mais, é um desejo da “árvore de dourados pomos” que Vicente de Carvalho descreveu. Somos como aquela criança na qual se faz cócegas e ela diz: -Não! Não! Não! Não! Aí você deixa de fazer e ela diz: -Mais! Mais! Mais! Mais! É assim que muitos sentem quando se aproximam do fim. Percebem que disseram uma vida de “não”, e, tardiamente, desejam as cócegas que desprezaram.

A gente pode! A gente quer! Mas, o porque cargas d’água a gente não consegue, não sabemos.

Quer dizer, os cristãos sabem, o apóstolo Paulo sabia e disse no 7 de Romanos: Por que somos tão bocós? Por causa do pecado! Fazemos o que não queremos, o que queremos não fazemos. Comportamento que afeta nossa moral e, por fim, atinge a felicidade social.

Jesus disse: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. E disse isso para um bando de bocós que não admitiam jamais que eram ridículos (Jo.8.32). E o que todos nós precisamos? De que Deus nos dê compreensão da Verdade sobre o pecado e suas conseqüências. Precisamos receber de Jesus a liberdade que nenhuma filosofia de vida pode oferecer.

Embora eu saiba sobre essa Verdade, ainda não a circundei. E enquanto não conhecê-la plenamente, direi e direi: “Desventurado bocó que sou, quem me livrará desse comportamento besta?”