E LÁ FOI ELA

mulher

Paulo Zifum

Ele estava passando e eu não podia deixar. Mas, como eu o iria parar? Haveria perguntas para me curar. Se não correr o risco,  morrerei. Vejo a multidão, mas vou. Tenho receio dos religiosos ávidos por discussões cerimoniais, pois empurram mulheres doentes. Corro risco, mas vou. Por doze anos senti a morte aos poucos. Senti fraqueza e calafrios, mas, agora, tenho esperança. E, se ele não quiser cuidar de mim? E se eu não for digna? Vou assim mesmo. E já sei como. Não pedirei nada, nem falarei com ele. Apenas pegarei a cura, como quem bebe água de uma fonte, como quem toma um fruto de uma árvore. Ele não pertence a ninguém, é de todos, como um bem divino. Não! Não preciso perguntar nada.

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O MURO

Paulo Zifum

O ateu sincero e inquieto, no fundo, quer atravessar o muro, romper com ele. O ateu cansado passa as mãos no muro e não quer remove-lo, acaricia. O religioso diz, orgulhoso, que o muro lhe pertence por idade, e presta culto simulando transcendência.  Mas, um passa pelo ateu sincero, pelo cansado e pelo religioso, sem ao menos olhar para eles. Não ouve discursos, não se incomoda com nada além do destino imediato desejado. Segue na calçada junto ao muro sem fim.

Seria a ideia sobre Deus tão dura e incompreensível? Seria tão inerte? Seria tão própria dos iluminados? Porém, o que incomoda é o sujeito seguindo na calçada “incurioso, com as mãos pensas” (expressão de Drumond em A Máquina do Tempo). Não sei se culto ou iletrado, se rico ou pobre, se revoltado ou conformado, não sei.

Lá está está o muro. Cercando tudo, querendo ou não. Intransponível e calado, e real. Alvo para derrubar, tolerar ou possuir. Dizem que do lado de lá está o Éden e reza uma lenda que a passagem é hebraica, baixa e invisível, para entrar de gatinhas. Falam que alguns acham em buscas solitárias ou são conduzidos por expedições. Uma profecia diz que, um dia, o muro cairá sobre todos os que eretos estão. Contam outras lendas também bem mais elaboradas e fantásticas. Há quem diga que não há muro, supondo ser um delírio.

 

 

É UMA COBRA DE VIDRO

Paulo Zifum

Quando meus filhos pequenos descreviam coisas e sentimentos, eu e minha esposa nos esforçávamos para preservar a visão deles. Era nosso interesse não empobrece-los retirando o encanto com nossa precisão.

Aprendemos com o poema de Manoel de Barros:

O rio que fazia uma volta
atrás da nossa casa
era a imagem de um vidro mole…

Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz…
se chama enseada…

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Infelizmente, depois que os meninos cresceram e chegaram às raias da autonomia, eu comecei a ficar um chato de plantão. A adolescência deles quase acabou com minha perspectiva artística. Passei a querer justificar e corrigir para “protegê-los”.

Ainda bem que eles me adotaram, e passei a rir de mim. Voltei a ver a cobra de vidro.

 

O QUE VEJO NO ESPELHO

Paulo Zifum

Eu sou imagem e semelhança de Deus?  Ah! Quando me vejo no espelho, o que vejo? Me encarei como nunca fiz para fazer uma pergunta a mim. Olhei bem nos olhos dele e, notei um leve estrabismo e os pequenos defeitos do rosto. Demorei para me concentrar no propósito teológico. Ainda me detive na decepção de não ter a beleza de Chris Evans.

Voltei para o esforço de me olhar integralmente. Vejo a bondade? Vejo vestígios da encarnação da verdade? Ah! Meus olhos chegam a marejar no espelho. Eu não sou um bom reflexo, ó Senhor! O espelho parece embaçado. Vejo um homem como se fosse uma árvore. Minha percepção de início desanima.

Ao sair, acalentei um pensamento redentor: o homem a quem olhei é amado por Deus. Cristo veio ao mundo e olhou no mesmo espelho que eu, depois logo morreu por mim, para que, um dia, eu possa ver a glória de Deus como ele via quando se via.

E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co.3.18)

 

EU NUNCA GUARDEI REBANHOS

Paulo Zifum

“eu nunca guardei rebanhos” (O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa)

Nessa poesia Pessoa fala de seus pensamentos. Todos somos como pastores que possuem um “rebanho” de pensamentos para cuidar. Parece que a humanidade deixou escapar o “rebanho” mais precioso que é sua “memória de Deus”, da qual Agostinho fala. A memória está tão fraca depois da Queda (origem do pecado- Gn.3), que o aprisco foi apagado. Guardar o que, agora? Um ressentimento de Deus, como nutria Olavo Bilac? Guardar uma distorção de Deus, como envernizou Nietzsche?

Fernando Pessoa era um guardador de rebanhos, sim. Seu aprisco literário está bem conservado e balindo ainda hoje. Porém, talvez, deixou escapar a centésima  e única ovelha de sua memória sobre Deus. Tinha noção do sagrado, mas, parece que a deixou ir.

Após a Queda, o ser humano tornou-se um guardador de pensamentos ruins, que, segundo o Apóstolo Paulo, é um covil da alma (Rm.7.19). Paulo nos orienta a colocar o mau rebanho para fora (Ef.4.22) e redimir o pensamento orientado para Deus.

Bem, meu modelo de guardador de rebanho continua sendo Davi, que de fato foi pastor. Ele disse: “Guardo no coração as tuas palavras para não pecar contra ti, ó Deus!” (Salmo 119.11).

Como está seu rebanho?

INSATISFAÇÃO NO SALMO 37

Paulo Zifum

Quem mora no prédio da Insatisfação mora bem e ao mesmo tempo, mal. Localizado na Rua do Salmo 37, o edifício é um condomínio literário de luxo. Um lugar onde os moradores passam décadas e não conseguem visitar todos os espaços e recursos oferecidos. A ironia do nome Insatisfação é uma crítica inteligente porque, a maioria das pessoas insatisfeitas possuem mais do que precisam ou merecem.

O arquiteto desse prédio foi um rei acostumado com a vida palaciana, com uma vida abastada e cheia de glamour, riquezas e possibilidades. E essa informação torna interessante a abordagem dos conceitos de  inveja, insatisfação, ansiedade e ira no corpo da obra. Tudo de um modo sutil e belo. O prédio provoca mudanças.

Quando chegamos no hall de entrada nos deparamos com a Inveja. O pé direito altíssimo, o mármore gelado, afrescos e a ausência de mobílias nos faz sentir pequenos. O lugar gera um sentimento sutil, não admitido. A desconfortável recepção confronta nossa relação com o mundo ao redor.  Entretanto, é na galeria de retratos de pessoas famosas onde os visitantes são mais atingidos, ou porque não dizer, surpreendidos, pela inveja do pior tipo de prosperidade.

O projeto, típico hebraico, não esconde jamais sua base monoteísta. No saguão principal encontra-se o quadro escrito “Confia no Senhor”. Nesse saguão o visitante perceberá mais um pouco de enfrentamento da vida que se alimenta de vaidades e mentiras. As coisas que apreciamos nessa vida podem ser resultado da propaganda da qual nos alimentamos. Ali, encontramos um entalhe dizendo: “Toma o Livro e come”, fazendo alusão à Bíblia.

O estranho no prédio é que o elevador encontra-se no subsolo. Uma ampla escadaria de granito obriga o exercício de descer para subir. E o que encontramos no subsolo da Inveja? A Insatisfação! Com um carpete vermelho delineado por um cordão dourado, faz o visitante cuidar onde pisa, ao mesmo tempo que fascina. E ali, surge um shopping de produtos básicos para casa, com expositores de tecnologia, agência de carro e até imobiliária vendendo sonhos, não faltando salões de estética com clínicas de cirurgia plástica. Tudo para deixar um coração agitado, com atendentes bonitos e muita propaganda vibrante. Sem falar da música ambiente que causa um frenesi. É preciso passar por essa prova.

Antes de chegar ao elevador, mais quadros sobre Deus, com convites para conhece-lo de modo pessoal: “Somente o Eterno satisfará seu coração”. O elevador é outro capricho do autor, onde o visitante sente estar no estômago da Insatisfação. Dentro, um aviso orienta de modo simples algo extremamente complexo: “Os comandos desse equipamento obedecem ao ritmo da respiração. Não aperte os botões sem estar devidamente calmo”. O painel mostra andares tanto para cima como para baixo.

Os andares para baixo seguem na seguinte ordem: Ira, Furor, Ressentimento, Violência e daí por diante. Os visitantes descem devido a sentimentos de ansiedade. A falta de paciência leva aos andares ímpios, e à medida que desce um alerta diz:”certamente isso não acabará bem”. O autor experimentou esses fins de curso.

Você pode consegue imaginar esse Salmo? Consegue respirar nesse elevador que declina?  O trânsito de sobe e desce é bem agitado.

E, por curiosidade: Você visita esse prédio?

leia o Salmo

https://www.bibliaonline.com.br/nvi/sl/37

O PECADO DA TATUAGEM

Paulo Zifum

Perguntaram para Jesus: Mestre, é certo fazer tatuagem? Ele respondeu: dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Aí, eu pensei: Ele não falava de tatuagem. -Essa peça está mal feita! -disse em protesto. -Você não pegou a crítica! disse um amigo ao lado. -O diretor está nos provocando. -Ah! Entendi.

Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más” 2Co.5.10

Deus deu a nós algumas dádivas como o tempo, o corpo e recursos diversos (desde o auxílio de pessoas até fontes de energia).  O que faremos com isso é uma responsabilidade que nos será requerida.

O uso do corpo é um assunto amplo e julgar o que são obras boas e obras más é uma tarefa delicada. Doar sangue ou órgãos, dormir tarde e comer mal, entrar no fogo para salvar alguém, usar a beleza para defraudar, usar a força para machucar ou simplesmente não fazer nada, podem configurar o bem ou o mal.

A tatuagem? Bem. É uma identidade, uma vaidade, uma rebeldia, uma loucura. Seja o que for, é um assunto muito pequeno, comparado aos atos que se podem fazer com o corpo. Eu não faria nunca uma tatuagem, por meu temperamento e tipo de masculinidade. Mas, eu acho que os caras que fazem um demônio da Tasmânia no braço são mais inofensivos que a senhorinha que fala da vida alheia. A fofoca e a violência verbal são atos do corpo, mas, engraçado que não causam polêmica e escândalo entre religiosos como a tatuagem.

As vezes penso que quem faz tatuagem tem desejos estéticos muito infantis. Mas, aquiesço porque tenho vaidades que são verdadeiras meninices. O cara que gasta um dinheirão com time de futebol, com shows caros ou coleções, podem ter obsessões muito idólatras também. Algumas coisas revelam amores subjacentes em nosso coração. A tatuagem pode ser julgada na intenção.

Se eu fosse eleger, entre cristãos, uma lista de discussão por ordem de valor, ficaria muito ofendido se alguém insistisse em discutir se tatuagem é ou não pecado. Eu me acho um pessoa inteligente, e pelo que consigo elencar, existem milhares de atos que fazemos com nosso corpo, com os olhos, com as mãos e pés que, se fôssemos praticar a amputação alegórica que Jesus sugeriu no Sermão do Monte, iríamos chegar no céu, muito reduzidos. Não teria espaço para colocar um piercing, o que dirá uma tatuagem.

Não devemos engolir nem moscas nem camelos. Essa é a dieta completa que Jesus nos deu. Se for para evitar algo, ele sugeriu começar pelas partes grandes e pesadas.