MINHA NAMORADA

Paulo Zifum

Eu a conheci em 1989. Eu tinha 17 anos e ela 13 anos. Estávamos na igreja e nossas afeições respiravam um ambiente devocional. Eu era um jovem amável e muito religioso. Os irmãos pensavam qual seria a moça adequada para mim porque percebiam que eu tinha vocação para o serviço clerical. Ela era recém chegada e demonstrava uma devoção bela a Deus e aos estudos religiosos.

Houve uma conspiração para que eu a percebesse, uma vez que sabiam que ela já havia me escolhido (meninas com 14 anos parecem maduras 10 anos à frente). Eu não conseguia perceber as sugestões, e, mesmo sabendo da paixão da moça, negava chance por achá-la nova demais.

Certo dia, um líder da igreja perdeu a paciência e arremeteu: Você vai perder essa moça. Eu estava tão absorvido com minha vida espiritual e minha missão como professor de crianças na escola bíblica, que não permitia outro assunto.

Era um sábado que mudou minha vida. Fui para casa e percebi uma carência escondida e negada. Minhas afeições mudaram o curso. Eu senti naquele dia uma alegria não catalogada.

Aos domingos pela manhã, vez em quando, o estudo bíblico era cancelado para que os jovens pudessem ir à praia e confraternizar. Ela estava lá, e, parecia que ninguém mais. Lembro-me vagamente de algum esporte. do sol e da beleza dos jovens, mas, nada mais. Eu passei aquela manhã pensando em como evitar “perder a moça”. Inconscientemente temia que algum espertalhão tomasse minha frente. Eu estava inseguro porque não tinha nada para dizer a ela.

Quando deixamos a praia, antes que ela fosse embora eu aproximei e disse que gostaria de conversar à noite após a reunião da igreja. Não fazia ideia qual seria a conversa, mas meu coração parecia explodir.

Fui para casa e não era mais o mesmo. Eu tinha um encontro com uma moça que sabia que me amava. Aquela tarde foi apagada e, não sabia que muitos intervalos de minha vida que antecediam O Encontro seriam deletados.

Pois, bem. Aquela foi a reunião de domingo (que Deus me perdoe!) da qual, pela primeira vez, não prestei atenção em nada. Só pensava numa coisa: como poderia mostrar-me ansioso e elegante ao mesmo tempo. Ela parecia mais uma estrela que uma menina de 14 anos. Tudo havia mudado e eu me sentia como num filme romântico quando pedi: Posso acompanhá-la até sua casa?

Andamos bem devagar porque o trajeto era curto. Então, eu disse: tenho um sentimento especial por você. Ela sorriu e disse o mesmo. Não lembro o que conversamos depois, só sei que novos sentidos para viver surgiram. Meu amor era, agora, um novo centro gravitacional.

Lembro-me dos olhos dela, seus cabelos, lembro-me que era inverno, lembro-me que gritava seu nome em casa e fazia minha família rir, lembro-me que a procurava pelas ruas, lembro-me do primeiro beijo como um sonho, lembro-me que até desconfiei  de minha felicidade antes desse amor.

Minha vida religiosa mudou cores e tons e passou a ser testemunhada por outra pessoa. Ela me amava a ponto de me ouvir falar por horas, com um olhar que jamais conheci.

Talvez, a coisa mais maravilhosa que descobri no namoro, não foi o beijo ou a convulsão emocional, e sim, o olhar. A maneira como ela me olha até hoje causa em mim a sensação de que sou único. É sempre um Encontro. Feliz é quem pode ter um Encontro assim.

Tenho uma namorada, e quando penso nela, sinto-me jovem, na praia, ao sol, envolvido pela beleza de seu olhar.

 

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