É UMA COBRA DE VIDRO

Paulo Zifum

Quando meus filhos pequenos descreviam coisas e sentimentos, eu e minha esposa nos esforçávamos para preservar a visão deles. Era nosso interesse não empobrece-los retirando o encanto com nossa precisão.

Aprendemos com o poema de Manoel de Barros:

O rio que fazia uma volta
atrás da nossa casa
era a imagem de um vidro mole…

Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz…
se chama enseada…

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Infelizmente, depois que os meninos cresceram e chegaram às raias da autonomia, eu comecei a ficar um chato de plantão. A adolescência deles quase acabou com minha perspectiva artística. Passei a querer justificar e corrigir para “protegê-los”.

Ainda bem que eles me adotaram, e passei a rir de mim. Voltei a ver a cobra de vidro.

 

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