O MURO

Paulo Zifum

O ateu sincero e inquieto, no fundo, quer atravessar o muro, romper com ele. O ateu cansado passa as mãos no muro e não quer remove-lo, acaricia. O religioso diz, orgulhoso, que o muro lhe pertence por idade, e presta culto simulando transcendência.  Mas, um passa pelo ateu sincero, pelo cansado e pelo religioso, sem ao menos olhar para eles. Não ouve discursos, não se incomoda com nada além do destino imediato desejado. Segue na calçada junto ao muro sem fim.

Seria a ideia sobre Deus tão dura e incompreensível? Seria tão inerte? Seria tão própria dos iluminados? Porém, o que incomoda é o sujeito seguindo na calçada “incurioso, com as mãos pensas” (expressão de Drumond em A Máquina do Tempo). Não sei se culto ou iletrado, se rico ou pobre, se revoltado ou conformado, não sei.

Lá está está o muro. Cercando tudo, querendo ou não. Intransponível e calado, e real. Alvo para derrubar, tolerar ou possuir. Dizem que do lado de lá está o Éden e reza uma lenda que a passagem é hebraica, baixa e invisível, para entrar de gatinhas. Falam que alguns acham em buscas solitárias ou são conduzidos por expedições. Uma profecia diz que, um dia, o muro cairá sobre todos os que eretos estão. Contam outras lendas também bem mais elaboradas e fantásticas. Há quem diga que não há muro, supondo ser um delírio.

 

 

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