O CAMINHO DE VOLTA PARA CASA

Paulo Zifum

Quando volto para casa observo os detalhes do caminho. Cada um vive sua experiência. Alguns são renovados pela bela paisagem e outros abaixam a cabeça para não verem toda a feiura. O caminho para casa pode ser duro, pode ser escuro, pode ser íngreme. Mas, também, pode ser encantador, cheio de paisagens lindas, pode ser suave a ponto de distrair-nos.

O cristão está voltando para casa. Ele tem convicção de que Jesus é o único caminho. Mas, sente dúvidas por causa de alguns horrores da senda estreita. O Caminho por vezes se mostra tão tranquilo, porém, passa por bosques cheios de perigos. O apóstolo Paulo tinha uma perspectiva bem realista do Caminho e sempre alertava os irmãos quanto à difícil jornada nesse mundo (2Co.11).

Quando Jesus disse: “Eu sou o Caminho”, falava sobre o retorno da humanidade para casa. E quando usou essa expressão “caminho”, não estava referindo-se à paisagem, mas ao único meio. A paisagem “pós-Queda” não é algo agradável para o cristão, cujo lar está bem distante de tudo aqui.

Uma vez que nos convertemos ao Caminho, passamos a ver as paisagens de modo diferente. Assistir TV, ouvir música, discutir política e avaliar a beleza de uma maneira nova. Passamos a notar o mau gosto de coisas que antes achávamos boas. Depois de conhecer a Cristo e seu sublime amor, as coisas, comparadas a Ele ficam muito desinteressantes.

O inimigo dos cristãos promove todo tipo de distrações das quais Bunnyan fala no livro O Peregrino. Miragens querem encantar e envolver, e não são poucos os que acabam comprando um pedacinho de terra por aqui (com a ajuda de algumas igrejas que parecem imobiliárias). Para sermos de fato cristãos precisamos estar só de passagem. Não há onde reclinar a cabeça.

Embora sinta-se agredido pela “arquitetura” do pecado, o cristão compõe hinos e sorri, porque a cada dia, a cada passo, sente-se mais perto de casa. Prossegue para o alvo, como um filho pródigo voltando para o lar, já sabendo que o Pai o aguarda.

*a imagem acima é do filme Senhor dos Anéis. O personagem Sam seguia a missão com Frodo e sempre falava sobre voltar para casa. E cumprir a missão era o único jeito.

AMIZADE CRISTÃ

Paulo Zifum

Ter uma amizade cristã é diferente de estar com cristãos. Algumas pessoas frequentam uma igreja e desfrutam da companhia, porem não selam acordos. Amizade cristã é quando dois ou três amigos decidem orar juntos e viver segundo o sermão que ouvem.

O exemplo clássico é de Sadraque, Mesaque e Abdnego (Dn.3). A amizade espiritual é publicada, não em termos de afinidade de gosto, como a maioria. É consolidada pela obediência à aliança feita com Deus. 

Imagino a conversa deles no grupo  :

conversa amigos

A amizade cristã nos fortalece conforme está escrito: “O trabalho realizado por dois é sempre mais proveitoso. Se um cair, o outro levanta-o; se estiver sozinho ao cair, ver-se-á em grande dificuldade. Duas pessoas podem melhor resistir a um ataque do que uma só. Com quantos mais fios for entrançada uma corda, tanto mais sólida será.” Eclesiastes 4:9-12

São amizades assim que permitem que jovens resistam firmes num mundo de sedução. Relacionamentos assim que dão força e coragem para cristãos que vivem na Babilônia de nossos dias.

O caminho é estreito, a estrada acidentada, os perigos incontáveis, os confrontos incessantes, porém, a companhia é fiel.

Feliz quem vive uma amizade cristã! Tem muita história de “fornalha” para contar!

EU QUERO APARECER

Paulo Zifum

Aqueles que se esforçam mais para aparecer, normalmente, dão mais relatórios e postam mais. Quem no mundo não quer um naco de reconhecimento? Perguntaram a C.S. Lewis  sobre sua fama como escritor e se sofria a ameaça do paganismo de desejar receber louvores. Ele respondeu: “Não se pode ser tão cauteloso a ponto de não pensar nisso”.

Onde for, numa igreja pequena de interior, numa empresa, no âmbito político ou meio artístico, podemos encontrar o combustível do “ser admirado”. A maioria não se dá conta do grau de força que faz para ganhar louvores. É algo tão… tão… natural, que nem percebemos.

-Eu quero aparecer! -disse Eva. -Eu quero aparecer! -disseram os arquitetos de Babel. -Eu quero aparecer! -falou José com seus sonhos. -Eu quero aparecer! -reclamou Saul quando Davi o ameaçou. -Eu quero aparecer! -encomendou Davi quando contratou o censo. -Eu quero aparecer! -disse o jovem que morreu ao querer a fama por matar Saul. O que sentiu Salomão ao ser reconhecido pela rainha de Sabá?

É mais difícil que pensamos esse tal culto puro de dar “toda” a glória para Deus! Fazer algo altruísta sem pensar nos possíveis comentários bondosos, é algo raro em almas carentes. – Você deu toda a glória para Deus ou ficou com um pouquinho? Silêncio.

Quando Satanás levou a Jesus para o pináculo do Templo, disparou uma tentação muito ousada. Qual ser humano que não deseja um breve elogio? Seria um pecado querer só um pouquinho como Geazi (2Rs.5.20-27)? É possível viver, trabalhar, sacrificar, e não querer nada além de ser útil?

A verdade é que, fazer as coisas para aparecer estraga a arte de tudo. Deveríamos realizar coisas bem feitas para refletirmos a grandeza do que somos (imagem e semelhança de Deus) e não para tentar provar que somos.

A tentação de transformar pedra em pão nos parece mais sensacional que a tarefa ordinária de “debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, forjar no trigo o milagre do pão”. Aparecer é o fundo do drama de “ser ou não ser”.

Não somos tão cautelosos quanto a isso.

*foto: Peça: A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, de William Shakespeare.

Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e flechas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir… é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:

 

 

 

ESCRAVIDÃO PORNÔ

Olympia, Manet. Escândalo em 1863

Paulo Zifum

A exemplo da escravidão, a pornografia é a negação do sujeito humano, é a forma de ignorar a exigência moral de que os seres livres se tratem como fins em si mesmos” Scruton, Beleza, pg.170

Roger Scruton, não é um teólogo, por isso, não precisava se explicar. Ele, na frase acima, não erra ao comparar escravidão com pornografia. Pessoas são reduzidas sempre, quando direcionadas fora de seu propósito.

Quando a mulher é escravizada? Quando uma criança cresce de modo servil? Quando o artista torna-se um escravo? Quando o publicitário cumpre a tarefa de um capataz? Quando a política impõe escravidão aos homens públicos? Quando os políticos escravizam as massas? Quando a religião se transforma numa sutil senzala onde os fiéis são  usados para sustentar o oráculo?

Jesus responde a essas questões refutando os religiosos de sua época. Ele disse: “o shabat foi feito para o homem e não o homem para o shabat” (Mc.2.27).

Esse desvio de finalidade pode ser percebido na pornografia, onde não há interesse pela pessoa, apenas pelo corpo.  Tanto quem produz pornografia (filmes, fotos, moda,  música) como quem consome, estão envolvidos numa cultura cujo deslocamento de propósito gera a escravidão. Ao criticar a pornografia, Scruton diz: “passamos a vida conduzindo um animal numa coleira, forçando-o a fazer o que queremos até ele entrar em colapaso e morrer” (pg.174).

O sujeito tem um fim em si, mas, esse fim não pode ser idólatra, como instiga o humanismo com sua “coleira”. Scruton acerta uma parte da questão, embora não trate as “questões últimas” que envolvem o propósito final do ser humano. A resposta cristã para essa questão é que redimirá, enfim,  o sujeito humano do laço de uma “escravidão pornô”.

Pergunta 1-Confissão de Westminster, cantada pelo cantor Stenio Marcius.

 

 

MÚSICA QUE DEUS TOCA

Paulo Zifum

Deus toca música. Ele mesmo, senta e toca, ou, senta e nos escuta tocar uma versão. Somos uma canção dele. Talvez, uma  poesia. Um verso, talvez. Somos juntos uma sinfonia. Ao observar o temperamento de cada um, penso em canções calmas e agitadas. Notas tristes, notas maiores e menores. Músicas encerradas de súbito. Melodias encantadoras e sons agressivos. Luz e calor, trevas e frio.

Existem pessoas com as quais Deus nos coloca para dançar. Canções onde Ele nos faz chorar. -Eu vou tocar você!-diz Deus -Gosto de ouvir!

Ele tem suas prediletas. Pessoas cuja composição foi única. Tudo posto ao lado, só ressalta e genialidade da obra. É como se a maioria fizesse parte da trilha sonora de uma geração, e nela, algumas melodias se destacam. Ninguém deve questionar. É mais que aceitável.

Ele não está mais me inventando. Há muito já fez a música. Já sou o que sou. E sou, penso eu, uma boa música. O problema surge quando Ele me deixa tocar. Minha versão é, um pouco rebelde. Quero acrescentar notas, e, confesso, não fica harmonioso.

Senhor! Toca-me! Deixa-me ser teu som preferido! Toca-me do teu jeito!

 

CRISTÃO ENTEDIADO

Paulo Zifum

A vida secretamente sem graça é um segredo. Pessoas felizes podem esconder um nível de tédio. A ida à Igreja pode tornar-se enfadonha e tudo muito previsível. E mais sofrível se a liturgia tem pouca beleza estética com músicas repetidas. E pior ainda se o discurso faz voltas no mesmo tema sem mostrar insigths novos. Chega a ser triste quando uma congregação faz de conta que está transcendendo. Torna-se um código não contrariar para manter a ideia de que a reunião foi elevada de um modo misterioso.

Por que culparíamos sempre o cristão por não ter espiritualidade? Não seria justificável achar que alguns cultos são, de fato, como uma manjedoura sem Emanuel? E não seria possível que, embora tendo uma fé bíblica, o cristão encontre-se em crise de sentido? É errado ou arrogante desejar mais profundidade e beleza para a experiência do domingo?

Não defendo que o culto deva ser desenhado para animar o cristão moderno. Mas, não posso fechar os olhos para a necessidade que cada um tem de tocar o sublime. Pois,  o ambiente comum de cuidar das ovelhas poderia estar matando Moisés, até que, é surpreendido pela sarça ardente (Ex.3). Quantos de nós precisam ouvir “tira a sandália de seus pés porque o lugar em que você está é sagrado”?

É honesto e aconselhável  encarar a falta de motivação antes de um romper de incredulidade (2Tm.4.10 -Demas), ou, antes que a religiosidade deixa a fé bem “morna” (Ap.3.16-Laodicéia)

A vida de um cristão pode tornar-se sem graça, porém, jamais a vida com Cristo será entediante. Deus nos ajude a abrir as janelas bíblicas para que nosso culto revele a Jesus Cristo, e, com Ele, alegres cânticos novos de livramento que renovam mente  e coração.

 

A SOGRA

Paulo Zifum

Se sua sogra fosse um lugar, como ele seria?

Sinto muito pelos que não tiveram sorte. A minha seria um lugar lindo.

Minha sogra resolveu ser serena comigo, como um rio calmo. Guardou com cuidado minha entrada e minha saída. Mantém, até aqui, uma bandeira em honra ao esposo de sua filha. E eu a reverencio como faz um guerreiro ante o Templo da Paz.” Gen Rucho