PREGAÇÃO SENSUAL

Paulo Zifum

 

Não o tipo de sensual que você está pensando. Pregação sensual é o discurso emotivo, que procura reparar sentimentos reprimidos (tanto dos ouvintes como do pregador). Os brasileiros, em geral, andam muito ressentidos por privações materiais e relacionais, e estão mais abertos a esse tipo de produto.

Em alguns discursos parece que o grande interesse de Deus é nos fazer sentir amados, amparados e animados. Dizer “Deus é contigo” faz “sentir” ânimo, e não há nada de errado em animar as pessoas. Porém, frases de ânimo na Bíblia eram usadas para pessoas cuja missão incluía o risco real de morte ou tinham sido severamente disciplinadas. Animar o tempo todo é “mimar”.

Quando questões emocionais são enfatizadas, elas roubam a cena. Apelos de fé para se obter a vitória podem simular a mensagem da Cruz, porém, muitas vezes, são sensuais num disfarce de consagração. O objetivo não é a glória de Deus e sim o triunfo histórico do indivíduo.

Uma igreja carente emocionalmente apreciará mais uma pregação sensual, onde suas imperfeições serão acolhidas. Também pode gostar de exortações que a otimize para lutar pela vida. De um jeito ou de outro ficará semelhante aos “gentios” que lotam auditórios de palestras motivacionais.

Não quero ser chato nem negativo. Mas esse tipo de sensualidade nos púlpitos rouba o realismo. A vida é composta de vales e montes, triunfos e derrotas, segurança e insegurança. E o ator principal do Salmo 23 não é a ovelha, não é seu bem-estar, não é sua segurança, não é o ato da “mesa na presença dos adversários”. O ator principal é o Pastor do Salmo e, quando diz “ainda que eu ande”, a ênfase está na confiança nele e não em “minha vitória vai chegar”.

Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, segundo os seus próprios desejos juntarão mestres para si mesmos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos.” 2Tm.4.2-4

 

 

DOM DAS ATITUDES DISCRETAS

 

“Ele tinha o dom das atitudes discretas, ouvia com atenção e valorizava muito o tratamento polido às outras pessoas, das quais mantinha certa distância, não por orgulho ou desprezo, mas por respeito à personalidade das pessoas, para não pressioná-las.”

Sabine, a respeito de seu irmão Dietrich Bonhoeffer, pastor e escritor alemão, morto pelos nazistas.

SONHOS DE ALERTA

Paulo Zifum

Tive um sonho com você. Estávamos caminhando quando vimos uma pessoa que parecia conhecida. Você foi até ela e começou a dançar e brincar com ela. Eu assistia, mas minha descontração acabou quando um buraco cheio de um óleo preto apareceu. Uma mão de dentro dele segurou seu pé. De repente, você sumiu e ressurgiu debatendo-se dentro do buraco. Eu não sabia o que fazer. Depois que você sumiu de novo, eu consegui gritar: Deus! Cumpre o teu propósito! Acordei com o suor escorrendo.

Uma amiga contou-me seu sonho: Estávamos numa festa com as maiores autoridades da cidade. Você passava no meio do saguão com uma bandeja, e subitamente você tropeça e cai. Todos começam a rir, e eu fiquei muito entristecida pelo modo maligno como aqueles convidados riam. Acordei nessa hora.

Tive outro sonho com você. Eu estava com uma mulher muito rica que desejava encontrar alguém de confiança para fazer uma doação. Citei seu nome e ela foi comigo para te conhecer. Disse a ela suas qualidades cristãs e ela confirmou a doação, porém, para meu susto, você mudava. Estranho, você não era mais você. Seu rosto era o mesmo, mas eu não te reconhecia depois disso. Acordei intrigado.

Um amigo teve outro sonho: Eu te encontrava no sonho e dizia: Não se envolva com sua família.

Tive ainda outro sonho. Você tinha acabado de mudar para um casa de dois andares. Eu encontrava sua esposa e ela dizia aflita na porta: Veja só! Acabei de mudar e terei que sair daqui. Meu esposo saiu de casa para tomar uma decisão. Eu acordei e não entendi nada.

Sabemos que as peças de um quebra-cabeças não fazem sentido algum, estando soltas. Porém, podem dar significado ao todo quando encaixadas no lugar. A vida é cheia de enigmas que faltam pequenas chaves.

Os sonhos não são confiáveis devido ao alto índice de informações e fantasias que enchem o imaginário das pessoas. Entretanto, depois de ouvir, pessoas sóbrias sabem, na mesma hora, se o sonho é um devaneio ou um divino alerta.

 

EROSÃO EMOCIONAL

Paulo Zifum

Eu vivo no morro. Lá, na área de risco. Quando chove é sinistro. A gente vê a erosão comendo a terra. Minha casa já deu uma entortada. Se continuar chovendo assim, sei não. Meu vizinho de cima desceu com casa e tudo. Eu vi esparramando com as coisas que amava. Já perguntaram por que não saio daqui. Não sei. A gente se apega com nossas coisinhas e pede a Deus que não aconteça nada.

TEM COISA QUE

Paulo Zifum

Tem coisa que só sua esposa falaria para você. Tem coisa que seu marido foi o único a dizer. Só um amigo muito próximo diria a verdade, ou, talvez, um inimigo seria mais honesto ainda. Quem diria certas coisas? Quem é capaz de nos interromper dizendo: “você não percebe o que está fazendo”?

Tem coisa que só com muito amor a gente fala para o outro. Não que falar verdades seja o expediente preferido do amor, mas pode ser uma das grandes habilidades de quem ama. Quem fala verdades para alertar, precisa de sensibilidade para compreender a vida e seus contextos, evitando assim o legalismo. É preciso coragem (amor) para criticar e depois aguentar reações negativas.

Minha esposa me observa. Passa dias e até meses, quando resolve dizer: “Amor, você sabe que ninguém falaria isso pra você”. Ela consegue falar coisas que secretamente penso de mim mesmo. Mas, quem teria a coragem para acordar um leão ou despertar um gigante? Bem, existe gente que tem. Ela me diz: “você tem uma falha grave nesse ponto específico”.

Deixei de cair em pleno voo ou de afundar no meio da rota, porque um amigo parou na minha frente. Já escapei de mim, diversas vezes, graças aos avisos sinceros de gente muito chegada.

Tenho pouca, ou quase nenhuma esperança nas pessoas comuns, porque elas sentem medo de mim ou amam demasiado a si.

Se você está vivendo muito tempo sem um impacto de verdade, então, deve preocupar-se com as amizades que está construindo. Se você tratou mal as últimas pessoas que foram rudes, mas verdadeiras, então, repense seu sistema de auto-preservação, porque ele vai te matar.

Tem coisa que só ouve quem tem amigos. E, acredite, não falo de elogios.

ESTUPRO EM SIQUÉM

Paulo Zifum

“Siquém, filho de Hamor, o heveu, governador daquela região, viu-a, agarrou-a e violentou-a.”  Gênesis 34: 2

Pais e filhos em crise. Cidades Perigosas. Culturas afetadas pela luxúria. Soluções de paz em detrimento da honra. Negligência e silêncio dos líderes, seguida de ação inconsequente dos liderados. Violência e intolerância. Forja de cidadãos passivos e rancorosos, capazes de gerar filhos imorais e violentos.

O capítulo 34 de Gênesis não menciona a palavra “Deus” ou “Senhor”. A história narrada ali, é um retrato da humanidade que está sempre “comprando lotes” no lugar errado (Gn.34.18-19), desejando o que não precisa (da maldição sensual e erótica) , manipulando elementos incontroláveis (pessoas são imprevisíveis) e resolvendo tudo com diplomacia morna ou com execuções extremas.  E, sendo o mundo governado pelo sexo masculino, mulheres e crianças sofrem a oscilação de uma sociedade que, ora protege ora expõe.

Genesis mostra que, sem Deus, nosso comportamento é desastroso, inadequado e violento. Adão, Caim, Abraão, Rebeca, Jacó e tantos outros, mostraram como a passividade ou agilidade em direções erradas, podem atrair o caos.

O estupro de Diná? Sim, foi um desastre! A jovem ficou num “limbo” emocional, ao ver sua vida exposta com um possível casamento com o estuprador. Porém, foi surpreendida pela explosão de vingança de seus irmãos que mataram Siquém (o criminoso que se dizia apaixonado pela vítima). Pobre Diná!

O autor de Gênesis, como fazem os grandes escritores, deixa o leitor julgar os personagens. Diná, aparece acima de qualquer suspeita em seu passeio pela cidade nova. Siquém é o homem mal que se apaixona e busca redenção sem arrepender-se. Hamor e Jacó parecem aqueles bem intencionados que nunca tratam os problemas sociais em sua raiz. Os “meninos”de Jacó surgem na história como heróis, mas também como policiais com licença para matar.

A história acaba como terminam muitos debates da humanidade. Veja os últimos versos:

Então Jacó disse a Simeão e a Levi: “Vocês me puseram em grandes apuros, atraindo sobre mim o ódio dos cananeus e dos ferezeus, habitantes desta terra. Somos poucos, e se eles juntarem suas forças e nos atacarem, eu e a minha família seremos destruídos”. Mas eles responderam: “Está certo ele tratar nossa irmã como uma prostituta? “ Gênesis 34:30,31

Se a visão de Jacó era essa, o que esperar de seus filhos? Ele havia hesitado e seus filhos se precipitaram. Não havia como reparar o estrago. Por fim, ninguém reconhece os erros: fazer negócios no lugar errado, não tomar medidas cabíveis, matar pessoas inocentes. Não há arrependimento.

O estupro de Diná é uma fotografia, uma novela, um filme, uma notícia que parece terem sido lançados na mídia agora mesmo. Eu leio e assisto. Sinto um aperto no peito. Tomamos o rumo errado.

NOTA:  A Bíblia é uma obra literária sem igual, e Gênesis, seu primeiro livro, carrega narrativas impressionantes, cuja síntese obriga seus leitores a anos de estudo. Se você possui uma boa tradução do hebraico (como a excelente obra de João Ferreira de Almeida para o português), então, pode debruçar sobre o livro e exercitar sua fé, viajando em suas histórias. Gênesis, segundo Dr. Carlos Osvaldo Pinto, é um drama da “criatura rebelde sendo restaurada por seu Criador”.