ERROS de GRAVAÇÃO

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Paulo Zifum

Quando se ama alguém, até nos erros de gravação se consegue obter alegria. A pessoa amada é acompanhada enquanto treina ser melhor, é assistida enquanto teima fazer as coisas do jeito dela. E feliz quem curte a vida ao lado, vendo cada cena. Alguns se aborrecem demais querendo ser diretores perfeccionistas. Muitos pais perderam a infância de seus filhos com a mania de corrigir tudo, sem rir com os “erros de gravação”. Todos estamos em treinamento e nossas trapalhadas sem dolo são um caso de riso. Segundo C. S. Lewis, “não dá para ser solene o tempo todo”.

Eu quero amar, e tanto, que tentarei ver a graça de Deus nos erros de meu próximo. Se não der para rir, pelo menos vou dizer: tenta de novo!

APAGANDO O ESTOPIM

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Paulo Zifum

Três personagens: Davi, Nabal, um moço e Abigail

O primeiro era um cara muito machucado emocionalmente, mas nobre e resistente. O segundo era um homem rico e extremamente duro de coração. O terceiro era um funcionário capaz de enxergar além de suas funções. E por último, uma mulher bela e sensata que salva a história toda.

O livro de 1Samuel 25 conta esse tenso e redentor momento.

Davi era um herói que vivia um banimento, sofrendo a ingratidão do governo. Algo muito comum na vida de grandes homens que, num dia são amados por todos e no dia seguinte são perseguidos por intrigas, suspeitas e muita difamação. O país inteiro queria saber o que havia acontecido no Palácio e o que Davi tinha feito para fugir daquela maneira. Ele fugiu “sem lenço e sem documento”, caçado por seus próprios soldados.

Não demorou muito para Davi formar uma milícia, um destacamento de voluntários, de homens renegados (1Sm.22).  Em fuga, ficaram refugiados na Vila de Maon onde acamparam na propriedade de Nabal. Precisando de provisões para seus 600 homens, resolveu pedir ajuda para Nabal. Pediu de modo humilde, supondo que seu passado como herói nacional ajudaria.

Mas, a vida é assim. As coisas se configuram fora de nosso controle. Somos julgados e julgamos. Interpretamos pessoas e circunstâncias muitas vezes de modo parcial e reagimos de modo desproporcional. Diante de um “não” podemos ter reações compreensivas e humildes ou intempestivas e revoltosas. Diante do estouro de conflitos, podemos reagir com sabedoria e de modo pacificador ou de maneira negativa e indiferente.

Nabal disse “não”. Nesse “não” viu Davi uma agressão. 

É assim. Tudo depende do contexto. Somos capazes de conceder, doar tudo facilmente para alguém, mas também podemos negar de modo irracional, arbitrário e injusto. Tudo depende das barreiras ou preconceitos. Nosso “não” pode ter razão ou só dureza de coração.

É assim. Depende como o “não” nos pega. Somos capazes de receber humildemente uma rejeição, mas podemos criar uma tempestade emocional julgando que a negativa foi um rompimento. Podemos reagir de modo sereno ou com puro veneno.

Nabal é um caso humano que não tem jeito. A anatomia da maldade em uma pessoa pode tornar previsíveis suas reações. Não esperamos bondade de um coração amargo. Nós mostramos predisposição para negar as coisas dependendo de nosso julgamento. Nabal disse que Davi era um traidor fugitivo que andava com um bando de gente suspeita (1Sm.25.10-11).

Davi não conseguiu equilibrar-se quando recebeu a notícia de que o pedido de recurso fora indeferido. E nessa hora, ter o poder nas mãos é um perigo. O ser humano pode ser um perigo com uma arma, seja ela de metal, intelectual ou social. No caso de Davi, ele tinha um exercito sedento para lutar por ele pela primeira vez. E é nessa hora que a tentação fica mais perigosa. Davi acolhe a ofensa de Nabal, mas não como uma simples rejeição, e sim como uma declaração de guerra.

O mundo está cheio de intrigas. E os mais fortes ou os mais irados não reagem de modo proporcional. Não há justiça na ira do homem (Tg.1.20). Nosso planeta está sempre por um triz de voar pelos ares. Rompimentos e divórcios são muitas vezes reações desproporcionais.

A reação do moço

 

Um moço ouviu a resposta de Nabal. Sua inteligência o fez pensar rápido: Vamos morrer todos! Preciso fazer algo! Preciso falar com Abigail!

O mundo precisa de gente assim! Quantos veem a desgraça chegando e ficam passivos dizendo: “É! Fazer o que? Seja o que Deus quiser!” Quantos pais veem seus filhos tomando rumos de maldição e ficam calados como se a rebeldia fosse algo imutável. Quantos tomados de indiferença e covardia assistem o mal marchar sobre os outros e não se movem para interceder. Podemos notar naquele moço o mesmo espírito de Abraão que pediu por Ló (Gn.18) ou de Daniel que suplicou um prazo para salvar a todos os envolvidos (Dn.2).

A ação magnífica de Abigail

Ela não era apenas um rosto bonito, como muitas mulheres. Ela tinha força espiritual para tratar aquela urgência. Ela, sabiamente, mandou presentes para antecedê-la, depois ensaiou um dos discursos mais belos sobre o encorajamento do ungido do Senhor, fazendo também uma sutil exortação quanto a fazer justiça com as próprias mãos. A pregação que fez abalou a Davi.

Assim são muitas mulheres sábias que vivem salvando seus lares, seus maridos e filhos. Elas “correm” e agem com prudência resolvendo conflitos, acalmando ânimos exaltados e falando palavras que desviam a ira incendiária. Pessoas assim nos impedem de fazer  e falar besteiras. A pacificação é uma ação de salvamento que, todos os dias, tem livrado nossas casas de serem inteiramente queimadas.

Assim é a vida

Basta uma palavra, um “não”, um descuido e… o caos surge. Por isso, aprendemos com Nabal: Coração duro racha de insensatez. Alertamos com Davi: Receber um “não” faz parte da caminhada. Crescemos com o moço: Não fique aí parado vendo o mal chegar! E por fim, alçamos voo com Abigail: Use os recursos para pacificar e escolha as palavras corretas para aplacar a ira!

Os que observam isso evitam males e tornam-se nossos heróis.

*O Gif acima: Cena do filme A Lista de Schindler. O capitão ameaça matar a todos que não entregassem um suposto ladrão. Após matar a primeira vítima, o capitão pergunta mais uma vez e, antes que executasse mais alguém, um menino dá um passo à frente. -Foi você? Indaga o oficial. Trêmulo, o menino aponta para o morto ao chão. Amo essa cena que mostra o valor de quem sabe agir sob pressão para salvar os outros. Brilhante!

O ESTOPIM DE MIM

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Paulo Zifum

Davi foi um homem que sofreu diversas humilhações. Desde jovenzinho, era preterido e desprezado. Foi excluído de um banquete familiar com o presença do profeta-regente Samuel (1m.16). Depois foi hostilizado por seus irmãos de modo injusto (1Sm.17-26-29). Depois foi perseguido por Saul (1Sm.18-19) e viveu dias de muita angústia culminados na Caverna de Adulão (1Sm.22). Em todas essas situações de esmagamento e opressão extrema, Davi comportou-se com temperança e com nobreza incomum (1Sm.24).

Mas, uma situação, uma pequena decepção, uma pequena ofensa, fez nosso herói “sair da linha”. Um homem tão prudente, foi pego de surpresa no incidente com Nabal.

Nabal era um fazendeiro rico cuja propriedade ficava em Maon (1Sm.25). Davi era um fugitivo caçado pelo rei que, tinha formado um exercito furioso de homens sem rumo. Passando pelas terras de Nabal, Davi pede gentilmente uma ajuda típica à militares em campanha.

Mas Nabal, não via Davi com bons olhos e o achava um fora da lei, culpado de rebelião. Para não se envolver e colocar-se contra o rei Saul, convenientemente nega dar assistência para Davi e seus homens. E isso parece razoável, porque Saul mandara matar os sacerdotes de Nobe por darem ajuda para Davi (1Sm.22) e, se Nabal sabia do ocorrido, estava sendo prudente.

O desprezo de Nabal atingiu Davi em cheio. A malignidade pode se infiltrar até no coração mais cândido. Davi era um herói de guerra condecorado e que havia feito muito pelo país. Todos sabiam, mas Nabal reduz toda a fama de Davi à suspeição de que “são muitos os servos fugindo de seus senhores”.

O que os homens que estavam com Davi diriam, caso não fizesse nada? Como ele poderia liderar um bando faminto? Deixaria aqueles homens voltarem a cometer os crimes dos quais buscava redimi-los? Deveriam saquear os lugares por onde passavam? Imaginamos o que se passou na cabeça de Davi.

Seus olhos ficaram negros e foi tomado por um sentimento muito ruim e perigoso.

– Davi ordenou a seus homens: “Ponham suas espadas na cintura! ” Assim eles fizeram e também Davi. Cerca de quatrocentos homens acompanharam Davi, enquanto duzentos permaneceram com a bagagem (1Sm.25.13). Davi ordena: “nem um só do sexo masculino pertencente a Nabal seja deixado vivo ao romper do dia” (1Sm.25.34).

A desgraça estava feita!

É assim o estopim! E parece que tudo tem um pavio ligado à carga explosiva.

Se você analisar a situação, Davi não devia agir de modo extremado. Ele iria matar muita gente inocente. A ira não produz a justiça divina (Tg.1.20). Por isso a Bíblia diz “Não te indignes; deixa a zanga. Se te irritares, será só para teu prejuízo” (Sl.37.6).

Todos temos um contexto que explica nossa repentina ira. Assim como Davi, nós somamos situações que vão nos desgastando. Corremos o perigo de pegar “nossos 400 homens nada bondosos” e sair com palavras feito espadas e “matar” pessoas inocentes. A ira nos deixa cegos. Uma faísca acende o pavio que, nem sempre, dá para apagar.

Leia a história completa e confira o desfecho desse estopim. Ali, há muito alerta pra você e pra mim.

https://www.bibliaonline.com.br/nvi/1sm/25

*o Gif acima é uma animação do filme 300 quando o estopim é aceso

HUMILDEFICANTE

BIOTONICO

Paulo Zifum

É um tônico para pessoas com o ego grande. Ele tem um efeito poderoso de acalmar a vontade de estar certo, de ficar em evidência e de ser amado. Claro, que não pode ser administrado sem necessidade. Só deve ser usado quando a pessoa está impossível.

Se você está com dificuldade de ouvir opiniões contrárias, se sofre constante desconforto pelo sucesso alheio, se fica com a mente ocupada sobre fazer ou dizer algo brilhante, se vive com ansiedade de aceitação, tem desejo forte por controle ou sente muita dó de si mesmo, então, tome colheradas de Humildeficante.

Se não sabe onde achar esse santo remédio, bem o encontrará no boticário antigo de São Mateus capítulo 11.28-30. A fórmula está bem descrita ali, em Cruz. É um verdadeiro tônico fortificante do espírito humilde.

Nem todos que precisam querem adquirir esse produto. A maioria, na verdade, prefere seguir à exaustão, fazendo a manutenção de um “ego em expansão”. E sofrem muito, sem necessidade. Bastava umas boas doses de Humildeficante e, pronto! Depois é só receber a paz. Mas, abaixar tanto para tomar um remédio, nem sempre parece de fato um remédio, e sim um veneno. Não é à toa que o rótulo tem uma Cruz e a bula avisa: “tem que morrer pra renascer”.

Minha mãe sempre me lembrava: Já tomou seu Humildeficante hoje? Eu disfarçava, e tentava escapar daquele gosto ruim, mas ela insistia, dizendo que era para deixar a gente forte. Hoje concordo com ela, principalmente aplicado às surras humildeficantes que, ela fazia questão de administrar em conjunto. Tomo até hoje.

PERDIDOS NO CAMINHO DE EMÁUS

EMAÚS

Paulo Zifum

A reportagem exclusiva do incidente no Caminho de Emaús não poderia ficar de fora do Evangelho (Lc.24.13-35). Como um álbum de fotos, o Evangelho mostra retratos onde podemos nos identificar.

Dois discípulos estavam abatidos porque Jesus estava morto. Para eles ainda estava, embora já haviam recebido a notícia incrível da ressurreição do Senhor. Porém, eles não conseguiam acreditar.  Caminhando para Emaús, os dois são surpreendidos por Jesus. mas o texto diz que “os olhos deles foram impedidos de reconhecer o Senhor”.

Jesus aparece exclusivamente para eles, mas não se revela para eles. Esse é um fenômeno, um mistério que nos envolve. Somos capazes de ver, sem reconhecer. Podemos estar diante da glória sem admirá-la. Essa era uma das desconcertantes experiencias que os homens tiveram com Jesus. Quantos desde seu nascimento estiveram com ele? Quantos  fizeram suas encomendas na carpintaria sem a chance de saber que estavam levando para casa móveis feitos pelo Criador do Universo. Conversaram com o próprio Deus sem saber diante de quem estavam. A mulher Samaritana não sabia, Pilatos também não. Filipe pediu ajuda a Jesus dizendo que queria chegar mais perto de Deus. Eles estavam impedidos de ver.

Com toda naturalidade, Jesus conversa com aqueles dois discípulos e pede, de modo sincero, que expliquem os últimos acontecimentos. Era necessário que dessem a interpretação deles, porque faz parte do aprendizado. E a narrativa do Evangelho de Lucas não consegue esconder a atmosfera cômica, pois falavam sobre Jesus para o próprio.

A interpretação de uma pessoa sobre os fatos, sobre a vida, sobre os personagens pode revelar o quanto ela está perdida. Experimente perguntar na rua o que acham sobre a guerra ou sobre um fato político e você ouvirá pessoas realmente impedidas de reconhecer a realidade .

Aqueles dois discípulos estavam vendo o mundo de modo natural, onde os ricos, os mais fortes e os políticos influentes determinam o fluxo da história. Eles não usaram nenhum texto das Escrituras para explicar os fatos.  Estavam presos numa cosmovisão onde Deus não controla a história. Estavam frustrados e, se recusavam acreditar no testemunho de outros que diziam que Jesus havia ressuscitado. Estavam racionalistas.

O Caminho de Emaús fala muito sobre o modo como cristãos, ainda hoje, interpretam a vida. É possível acreditar no Sermão do Monte, mas na hora de explicar as coisas, somos tentados a usar “outra matemática”.

Jesus, “começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras.”(Lc.24.27). E nisso residia toda a diferença! Explicar a vida segundo as Escrituras. Não usar a Bíblia para interpretar a história é, talvez, a razão pela qual milhares de cristãos se encontram frustrados e perdidos no caminho.

Enquanto os dois discípulos “explicavam” para Jesus quem era Jesus, o coração do mestre ria. Quando Jesus começou a expôr as Escrituras, o coração deles ardia (Lc.24.32).

Nossos olhos estarão sempre impedidos de reconhecer o Senhor e de discernir a vida, se nossa referência não for as Escrituras. Estaremos no Caminho de Emaús, perdidos, com o Senhor ao lado, tentando explicar para ele porquê as coisas não funcionam.

Ainda, bem que o Espírito Santo nos foi enviado como “divino companheiro do caminho”. Ele nos ajudará a voltarmos para a Bíblia, sempre.

 

DO ÉDEN AO GETSÊMANI

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Paulo Zifum

Assim está escrito: “O primeiro homem, Adão, tornou-se um ser vivente”; o último Adão, espírito vivificante. 1 Coríntios 15:45

Dois homens, dois jardins. O primeiro homem, criado de modo especial. O segundo, gerado de maneira sem igual. Os dois tinham uma ordem clara. Adão devia obedecer para não morrer. Cristo sabia que a ordem era morrer. E era a obediência a prova de uma vida realmente consciente de propósito.

No Éden, o primeiro Adão abandona a direção divina para fazer sua própria vontade, seguindo em rebeldia para uma vida sem consumação. No Getsêmani, o último Adão luta com sua vontade e a vence. Qual dos homens foi capaz de dizer no fim da vida: “Está Consumado”! Todos nós, após Adão, falhamos. Temos dificuldade de obedecer para viver, e cedemos às mais diversas tentações que nos reduzem a subviver. Nenhum homem conseguiu viver em obediência 100% para dizer “está consumado”. Só Cristo!

No Getsêmani, Jesus morria (angústia e colapso emocional) para dar vida. No Éden, Adão tomado de vaidade, saltava para viver sua vez, tirando de todos essa possibilidade. Quando procurado sobre a culpa, Adão disse que não era tutor de Eva e que ela devia assumir seu erro. Jesus, ao ver a culpa, pede ao Pai anistia para os pecadores. Ele diz a ao culpado: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Mas, o primeiro Adão é expulso do Paraíso. Um nos faz voltar ao Jardim de Deus, o outro nos conduz aos apetites da carne e fora da presença de Deus.

No Éden, a humanidade é vencida. No Getsêmani, a humanidade é redimida. Em Cristo, os filhos de Deus são animados à dizer: “contudo, seja feita a tua vontade e não a minha”. Em Adão, somos escravos da lei do pecado, e não há liberdade de fato. Caim, segundo Adão, repete a atração pelas trevas do rancor. Estevão, em Jesus, repete o perdão mesmo em meio ao pavor.

Eu penso nessas coisas. Eu fui expulso do Éden. E mesmo que Deus me colocasse lá novamente para dar-me uma segunda chance, eu seria expulso, e de novo, e de novo. Agora, em Cristo, encontro-me no Getsêmani. Todo cristão está nesse jardim. Ali, juntos ao Senhor, ora acordados, ora dormindo, ora sóbrios orando, ora fracassados na carne, ali, lutamos. E assim será toda a vida.

Neste mundo de jardins e frutos proibidos,  a humanidade vive constantemente banida e refugiada. A maldição do deslocamento de Adão fez Caim andar com medo. Mas, graças Jesus Cristo, encontramos o jardim que nos levará de volta ao Paraíso. E cada cristão sabe ajoelhar e decidir obedecer. Cada um sabe que deve tomar sua cruz, para nEle alcançar sentido, propósito de uma vida consumada.

A AMIZADE FALHA

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Paulo Zifum

A arte de ser um bom amigo envolve sensibilidade de notar detalhes, palavras, gestos que são verdadeiros pedidos de socorro.

Jesus sabia fazer amigos e também mantê-los. Alguns chegaram a ele, outros ele convidou para o círculo. Ele tinha 12 amigos e amou a cada um deles. Contam os Evangelhos que nos últimos dias, Jesus ficou muito depressivo porque a conspiração contra ele havia fechado todos os acordos com a “hora e o poder das trevas” (Lc.22.53). Nesse momento ele chama Pedro, Tiago e João para ficarem com ele. Nunca o mestre havia pedido “por favor, fiquem comigo, estou muito angustiado até a morte”.

Era madrugada e narrativa diz que eles dormiram enquanto Jesus desabafava. O Senhor estava tão abalado que, os acorda e pede que lhe façam companhia. Insiste devido à solidão que sentia. Mas, eles voltam a dormir e o deixam falando sozinho.

Somos assim, não é?

Sonolentos, ouvimos nossos amigos contarem seus problemas num fim de semana, mas durante a semana somos incapazes de mudar nossa rotina para verificar como anda o amigo. Continuamos o futebol, a academia e outras tarefas que podem esperar. Aí, nos encontramos no outro fim de semana e nem lembramos ou, se perguntamos, minimizamos o problema pelo tom de voz ou falta de olhar nos olhos.

Eu acho que devíamos ler os sinais. Aparecer no dia seguinte com uma pizza, ligar e “permanecer acordados”. Devíamos oferecer atenção e esforço adequado, mas, parafraseando o que Jesus disse naquela mesma noite: “o espirito da amizade está pronto, mas a carne é fraca”.

Os amigos de Jesus o deixaram no momento em que ele mais precisou. A amizade falha. Espere por isso. Seus amigos podem dormir, ausentar, trocar você por um lazer, por uma hora extra ou apenas por falta de entender seu pedido simples de “fica comigo”.  Você falha e eles também.

Fica o alerta: Quando um amigo te chamar para conversar, mesmo que esteja disfarçando que está tudo bem… vigie porque pode ser…

COISAS QUE DURAM

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Paulo Zifum

Das coisas que adquirimos, admiramos as que duram. Olha esse sapato! Tenho há anos! Esse móvel foi de meu tataravô.  Não se fazem mais coisas como antigamente! Resistência é um valor das pontes e prédios, e também das pessoas. Tem gente que dura bastante, o que, nem sempre, é motivo de alegria.

Existem cidades que são feias, e tão sólidas, que não há esperança de que acabem. Há algo profundamente triste quando o que é ruim dura muito.  Coisas más podem ficar a vida toda. Van Gogh disse que “a tristeza vai durar para sempre” e, quem pode duvidar disso ao olhar para a História?

Porém, assim como a tristeza pode ficar séculos na arquitetura e no corte social de algumas culturas, assim a alegria, também mostra-se durável em várias estruturas. O mundo criado por Deus tem grandezas de alegria, sólidas alegrias, abundantes alegrias, que o mal com toda sua escuridão não conseguiu tirar dos olhos. A lua, o mar e o céu, e depois o sol, dizem todos os dias que “a tristeza pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” ou também diz que “o sol pode lhe queimar o dia todo, mas a ternura e o descanso da lua virá à noite”. Há uma esperança na estrutura da criação.

Porém, o ser humano, tem um drama existencial descrito pelo poeta:

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

É possível viver triste numa estrutura que oferece felicidade. É possível ser amado e não desfrutar. É possível morar frente ao mar e não ver graça nem no pôr do sol nem no luar. E o pecado original faz “a tristeza durar para sempre”, mesmo que a chuva caia bela, escorrendo musical no telhado da pequena varanda. É um drama!

O mundo criado fala sobre Deus e seu amor, mas somos capazes de construir coisas sem significado e alterar a paisagem com estruturas duras, e infelizmente duráveis. Muitas coisas são como um Muro de Berlim. Permanecerão séculos enquanto não forem durrabadas.

E, no caso da estrutura do pecado, só Jesus Cristo, pode interromper sua duração. Ele é aquele que tem poder para “destruir a barreira, o muro de inimizade, anulando em seu corpo a lei dos mandamentos expressa em ordenanças… para criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade” (Ef.2.14-16).

Jesus é o único que pode tirar-nos da incoerência que Vicente de Carvalho desfia em seu poema Felicidade descrito acima. Ele pode nos dar sua alegria (Jo.15.11) e significado real, que permanece, mesmo que o mundo caia ao redor. Ele pode nos dar a alegria cuja estrutura é simples e firme, a alegria sustentável por sua Palavra.

*Foto: Queda do Muro de Berlim em 1989.

 

AVENTURAS DE ÔNIBUS

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Paulo Zifum

O homem desatou falar de sua vida pessoal. E, em menos de 10 minutos, contou os segredos mais cabeludos. Nunca havia me visto antes, mas eu parecia um anjo atencioso (nem sei se existe essa categoria). Arrependi ter sido atencioso, porque via a hora de contar-me algum crime terrível ou ser envolvido nalguma trama maluca. É difícil praticar a compaixão do outro enquanto se tenta salvar a própria pele.

Uma vez, um quarentão levemente bêbado, chorou comigo. Quase chorei também porque não é sempre que alguém se apaixona pela sogra e chora de modo suspeito no velório da mãe da esposa.

Aprendi a ficar de bico calado nessas viagens de ônibus. Mas, caio na recorrente tentação de perguntar com uma certa afeição sobre a família, para mostrar interesse. As famílias andam bastante, digamos, perigosas. Uma mulher contou que sua nora é bruxa e que a viu pular o muro de modo incomum. Eu arregalei o olho. Ninguém conhece uma Jeannie que é um Gênio fazendo mágicas. É só coisa sinistra que aparece.

Um rapaz pediu ajuda com sua mala, ajudei meio assim… sabe? Ele me olhava com olhos caramelados. Ser gentil é uma fonte de confusão. Certa vez uma vovó me deu um número de telefone. Nem quis perguntar nada porque com os cílios tremulantes ela dizia tudo.

Rodoviária é uma oportunidade de viver o novo. Não sei como, mas uma certa mulher arrumou guerra por causa de um assento. O ônibus estava quase vazio. Um passageiro subiu e pediu seu lugar. Isso liberou o “assento de Pandora”. A mulher em vez de levantar-se, ralhou e disse que tinha muito espaço no ônibus. O resto, você já pode imaginar: viagem para o Rio de Janeiro, mulher cheia de gíria e um paulistano todo certinho. Ficamos atentos a viagem toda esperando uma tragédia. Quê noite tensa! A  dona falava alto ao celular combinando vingança com alguma facção.

Ronco? Santa Periquita! Tinha uma mocinha do meu lado que roncava como o Hulk. Inacreditável!

Tive também um companheiro de viagem que falava dormindo. Falava coisas românticas e  eu gelava com medo de ganhar um afago.

Mas, nem tudo foi exótico, hilário ou perigoso. Vivi bons momentos tomando Dramim. 

Quem gosta de aventura, viaja. Se quiser mais adrenalina, vá de onibus para o Nordeste. Nem te conto as intervenções vividas!

PREGUIÇA É FALTA DE FÉ

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Paulo Zifum

Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade” (Efésios 4:28).

A preguiça é uma alternativa de vida semelhante à do ladrão. É um modo de sugar os recursos disponíveis sem contribuir com nada e com ninguém.

E qual a relação disso com a fé? Ora, a fé em Deus é um trabalho que exige esforço, concentração, cálculo de espera e, às vezes, sofrimento paciente. Fé é uma ação que pode conceder o ócio, posto que pessoas que tem fé podem ficar quietas enquanto aguardam.

O repouso sem trabalho (sem fé), porém, só é justificado em dois momentos: na vida de colo e na vida enferma.  O bebê pode curtir o preguicinha e o doente pode aceitar em paz os cuidados dispensados. Nunca pessoas depressivas ou anêmicas devem ser chamadas de preguiçosas. Mas os preguiçosos simulam bem a doença.

Preguiça não é doença. Preguiça é pecado de rebeldia, incredulidade e, em alguns casos, um requinte de maldade. Preguiçoso vai pelo caminho espaçoso e passa pela porta larga (Mt.7.13), e… o folgado nem sequer anda, pede para ser carregado. Faz aquela carinha simpática que só o bichinho preguiça sabe fazer. Vai dormindo, abusando da mãe  e do pai, dos amigos e do Estado. Deus me livre de uma vida assim!

Vamo trabalhá pessoah!

“E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. “(Jo.5.17)