DESDE O VENTRE

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Paulo Zifum

Era uma sessão de Umbanda e meu pai era cambono (assistente). Minha mãe cumpria a função de cavalo (termo usado para médiuns). Certa vez, grávida, ela recebia um determinado exú (espírito) que dirigiu-se a meu pai apontando para meu irmão Luiz e, com voz modificada, disse: “Esse não pertence a nós. Ele é do homem lá de cima!”.

Depois que eu nasci, fui levado para o centro de Umbanda. Assistia a tudo sem medo, com muita curiosidade. Lembro-me do cheiro dos incensos e velas, das roupas e a decoração confusa e brega com tecidos brancos, vermelhos e azuis. A irmandade parecia muito amistosa. Tudo começava em silêncio com os bater de ombros entre os participantes. Eu olhava com atenção as guias coloridas balançarem no pescoço de mulheres e homens. A mãe de santo tinha muitas guias. A sessão começava com as invocações. Eu ouvia saravá e os atabaques começavam a rufar. Pessoas muito afinadas puxavam os chamados pontos e mulheres começavam a girar com aqueles vestidos brancos rendados. Após bater cabeça, gritos e grunhidos marcavam a presença dos espíritos.

Durante as incorporações eu tentava identificar nos cavalos os personagens ilustrados nas pequenas estátuas organizadas no Congá (altar de imagens). Para um menino curioso, aquele ambiente místico era empolgante. Quando era noite de Cosme e Damião os adultos ficavam como crianças rolando no chão, comendo doces e brigando entre si. Era uma cena engraçada e ao mesmo tempo suspeita.

Embora houvesse uma certa ordem e respeito naquele ambiente, sentia-me incomodado com vendo minha mãe com seu corpo distorcido, bebendo uma garrafa inteira de pinga no gargalo como se fosse água. Os espíritos literalmente montavam em seu corpo (tão sagrado para mim), e depois que usavam a deixavam ali, suja e exausta de rolar no chão. Lembro-me de meu pai a erguendo ainda inconsciente. Não falávamos nada no retorno para casa.

Nesse tempo meu irmão Luiz, já adulto e morando no Rio de Janeiro, tinha se convertido ao cristianismo. Eu não sabia que tudo em nossa família iria mudar radicalmente.

Luiz passou a nos visitar de modo missionário. Com muito amor, nos revelou que a Umbanda praticava um sincretismo religioso que não podia ter origem em Deus. Ele foi nos confrontando com muita sabedoria e cuidado até que meus pais permitiram que ele removesse o Congá que tínhamos dentro de casa. Foi um dia histórico! O jovem cristão, com o conhecimento que tinha dos exús e orixás e com a autoridade adquirida no nome  de Jesus, quebrou as imagens,  uma por uma, expulsando aquelas entidades da vida de nossa família.

Todos, meus pais, irmãos, cunhados e primos fomos impactados com aquele ato profético. O Evangelho entrou em nossa casa e passamos a ir à Igreja. Eu assisti a transformação na vida de minha mãe, que agora era tratada com dignidade pelo Espirito Santo. Eu e meus irmãos já pertencíamos a Jesus desde o ventre.

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