O HOMEM HONESTO

rodin

Paulo Zifum

Pilatos me pareceu honesto ao julgar a Cristo. Era um governador cruel, mas mostrou interesse em entender o sistema politico-religioso dos judeus. Certamente, como um romano de herança filosófica grega, percebeu que não havia sentido condenar a Jesus.

Ele fez perguntas ao réu e aos acusadores. Ouviu as partes e se afeiçoou a uma delas. Quando conversou com Jesus, percebeu ser ele um homem incomum. Pilatos queria ouvir: “sou inocente, me ajude, julgue com justiça”. Em vez disso, ouviu o silêncio. Enquanto os acusadores gritavam, Jesus permanecia calado. Pilatos insiste, pensando em advogar a soltura do rabino malquisto por seu povo. Mas sabia que,  Jesus não poderia escapar daquela fúria social.

O comportamento do governador romano é típico do homem honesto. Ele tenta julgar com justiça e tenta fazer o que lhe parece certo. Não podendo, busca salvar a si por meio da auto-absolvição. O homem honesto mostra que não concorda com o mal, e no final “lava as mãos” , dizendo: “eu tentei ajudar vocês”.

A honestidade é uma virtude. Muitos homens se esforçam para manter a coerência e lutam para não serem acusados de leviandade. De modo honesto procuram se eximirem da acusação de serem neutros. Tomam cautelosamente partido, e como Pilatos dizem: “não vejo culpa alguma nele”. Mas, ao lavarem as mãos, lavam mesmo?

Muitos políticos foram educados por pai e mãe honestos. Chegaram a ser eleitos de forma honesta, mas a água do cântaro na qual lavam as mãos não é benta nem santa. Juízes podem até mostrar transparência, mas o extinto de sobrevivência os faz providenciar uma sentença de escape. O “eu lavo minhas mãos” pode ser o mesmo que “eu não vou morrer por isso”. É uma saída honesta que inventa uma justiça própria. Pilatos desejou ser seu próprio redentor e, honestamente, tomou o rumo errado.

Pilatos ouviu a “rede social” postar: “se soltas este, não és amigo de César”. Bem, nessa hora, o governador se viu acuado, assim como todos nós. A tentação de “lavar as mãos” é um modo honesto de dizer: “não concordo com vocês, mas também não sou inimigo de César”.

Nosso mundo está repleto de pessoas honestas, mas isso não é suficiente para conter o mal. Honestidade é uma forma asséptica de viver, porém não é, necessariamente, uma forma santa. Pode um religioso ser honesto sem ser santo, mas é impossível ser santo sem ser honesto. A santidade é superior e, nesse caso “não” lavar as mãos é levar a honestidade até às últimas consequências.

Honestidade apenas não salvará a alma. Por isso, o Evangelho surge único entre todas as religiões, porque não apresenta as virtudes como meio de redenção. O Evangelho é como uma rua sem saída, maravilhosa senda sem saída. Lá, no final,  homens honestos encontrarão uma Cruz. Ali, os homens tem a oportunidade de serem identificados com Cristo em sua morte. O Cristianismo não é um escape existencial onde pessoas sinceras lavam as mãos. É único meio de pecadores alcançarem “mãos santas”, por meio do sangue de Cristo.

Coram Deo

*foto: O Pensador (1904) é uma das mais famosas esculturas de bronze do francês Auguste Rodin.

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Um comentário sobre “O HOMEM HONESTO

  1. Que esse entendimento possa chegar a milhares de Cristãos espalhados pelo mundo. Aprendemos errado e, consequentemente, ensinamos o evangelho de maneira equivocada. Qualidades e virtudes não garantem a salvação. Busquemos, então, a SANTIDADE.

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