ANA, ELCANA, PENINA E TODOS NÓS

fix ayes

Paulo Zifum

Ana significa “cheia de graça” אנה Hanah

Ana era uma mulher hebreia cuja a história foi eternizada no fantástico livro de Samuel שְׁמוּאֵל. Essa obra literária é especialista em retratar personagens e contrastá-los de modo que o leitor escolha sempre a virtude destacada.

A história de Ana ocorre dentro de uma cultura em que um homem poderia ter duas esposas em circunstâncias muito específicas*. Ana tinha um esposo amoroso e uma rival odiosa. Não sabemos quem era esposa legítima (primeira) se Ana ou Penina. Sabemos que o ciúme nesse contexto é um tormento (Gn.30). E com Ana ocorreu o pior que, na época, poderia ocorrer com uma mulher casada: a esterilidade.  Penina era fértil e, com muitos filhos fazia tudo para irritar Ana, que não demorou para entrar em depressão.

Seu esposo disse: Você só chora e não come. Sua tristeza de coração mexe comigo. Por favor, coma! Pense em meu amor, eu te peço. Eu acho que meu amor é melhor que dez filhos!

Ana não sabia como responder. Como explicar para um homem tão bondoso algo que poderia entristecê-lo. A ânsia de ter um filho havia se tornado um “buraco” gigante em sua alma e o amor de esposo parecia insuficiente.

Essa pequena história tem apenas 9 versos e um mundo de mensagens!

A vida é cheia de pessoas se dividindo, de situações de desconforto e necessidades não supridas. E, algumas horas, percebemos que não há dinheiro, não há medicina e nem o amor das pessoas (esposo, esposa, filhos, pai e mãe) que resolva.

A vida tira a agenda de nossas mãos e nos diz como uma governanta má: Você não pode escolher datas aqui! E você também não pode ler as datas do futuro!

A vida pode impôr tristeza e solidão mesmo nos dando uma mesa farta e carinho ao redor. E isso nos faz sentir culpa e conflito.

A vida é assim! Ninguém pode ter tudo e sempre falta algo.

A tristeza de Ana era legítima. Ela tinha razão de se sentir triste, incompleta e fracassada. Quando um ser humano não consegue funcionar para aquilo que foi criado, ele pensa: O que estou fazendo aqui?

E a tristeza é aumentada pela comparação. Não conseguimos viver sem perceber a felicidade alheia. Ana olhava para as conquistas e orgulho de Penina e via sua esperança se adiando. E Penina fazia questão de desfilar o sucesso e dar aqueles “closes” maldosos para Ana.

A vida desfila comparações. As propagandas deixam as almas aguadas. Você não consegue se segurar. Olhe para você! Por que está aí ainda? O tempo está passando e logo você estará velho. Penina é a vitrine que nos lembra que não temos recurso suficiente.

Como entender adolescentes cortando os pulsos com pais amorosos no quarto ao lado? Como entender homens e mulheres com olhar distante diante de filhos saudáveis no playground? Como evitar a tristeza de não conseguir casar? Tanta gente de mãos dadas e você segurando a coleira de um York shire.

E se você é um esposo de Ana? Você se sente impotente. Você faz tudo pela pessoa amada, mas não pode fazê-la feliz. Dá vontade de chorar! O que um pai e uma mãe não dariam para ver um filho feliz? Mas, existem coisas que jamais poderemos oferecer.

O texto só tem 9 versos! Incrível como essa “pequena tela” explica como a tristeza legítima surge e aumenta reduzindo nossa vida à necessidade de ter tudo.

Bem no meio, num verso discreto, encontramos Deus na equação, indicando que toda provisão em nossas vidas é deliberada por Ele. E muitos ficam magoados com Deus, porque acreditam que Ele diz “não” para coisas básicas, como no caso de Ana que sonhava ser mãe.

O verso 5 parece nos dizer que Deus é quem nos supre com amor ou coisas, é quem nos dá satisfação ou nos deixa chorar. E se Ele vai dar um filho para Ana não podemos saber agora. Talvez ele diga apenas: Minha graça te basta! Talvez ele fique em silêncio até que as águas dos olhos mudem o deserto.

Gosto dos 9 versos.

*Levirato: Ocorrendo a morte de um irmão casado sem herdeiro homem, o cunhado era convocado a assumir a viúva jovem do irmão (Dt 25:5-6).

 

Anúncios

Um comentário sobre “ANA, ELCANA, PENINA E TODOS NÓS

  1. Acho que não estamos maduros o suficiente para entender a dimensão desta afirmação: “A minha graça te basta”. Quero apenas confiar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s