CARMELITA ENSINA

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Paulo Zifum

Alguns idosos ficam mimosos para ganharem carinho, mas minha mãe, com 86 anos é mais esperta. Ela protege os muros de sua independência e os defende com tudo que possui, não por orgulho, e mantém o rosto de guerra, por necessidade. Não admite que sintam dó dela e um dos mecanismos de defesa é hostilizar as ofertas de ajuda. Carmelita acredita que o aumento do conforto cria vício e enfraquece a fibra. Se alguém sugerir que ela está carente ou que não pode mais fazer algo, ela nega, recua e depois cria sua própria narrativa para suas limitações.

Carmelita é uma leoa e sempre será. Os filhos a temem, pois mesmo idosa, sem rugir, ainda causa pânico na turma toda. Ela tem um modo de falar como quem está no topo. É indomável por sua natureza valente, e não tem medo de nada.

Ela é amorosa, mas não é sentimental. Sua vida sacrificial por sua prole deu a ela muita autoridade, e essa ela usa muito quando o assunto é justiça. Alguns idosos não querem mais saber de “dar uma dura” em filhos e netos, mas Carmelita, continua presidindo a “vara” da infância e da juventude (marmelo, cinto e chinelo), e ainda instaurou a “vara” dos adultos traquinos onde “dá um sabão” na gente, até hoje.

Por seu temperamento, falha, porque fala. Mas é irrepreensível no que faz. Quanto ao falar, já sofreu pelo pouco silêncio que produziu. Mas é linda! Ruidosamente bela! E nós ficamos felizes de vê-la forte, rindo e botando a gente pra correr, mesmo com quase 90 anos.

Mamãe é muito esperta e nos ensina a viver!

 

APENAS UM HOMEM SEM CAMISA

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Paulo Zifum

Fui a uma cidade desconhecida onde não era ninguém. Eu não era ninguém. Um total desconhecido. Tirei a camisa e segui, despudorado de calção velho e chinelo gasto, com o cabelo despenteado, sem lenço e sem documento.

Ignorado, segui pelas ruas sob o calor de 40° num subúrbio com poucos adjetivos. Eu era apenas um homem sem camisa, um latino-americano sem dinheiro no bolso ou parentes importantes.

Senti-me ordinário entre meus pares que não me notavam. Ninguém cumprimentou-me. E eu, sempre atento para essa educação, fazia de conta ser um homem da cidade. A  ninguém dei sequer boa-tarde.

Quanto mais pequeno e insignificante, mais feliz eu ficava, por poder andar de peito aberto, exibindo o umbigo tímido. Lá ia eu: livre, sem me preocupar além de ser apenas um cara sem camisa.

Por que passamos a maior parte do tempo usando roupas, posses e talentos para disfarçar o sinal do umbigo? Esse sinal de que nascemos totalmente dependentes e que, ainda, dependemos de tantas coisas. Por que alguns têm tanta dificuldade de afirmar-se na declaração do “nu vim, nu voltarei” (Jó.1.21) ou do “nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele” (1Tm.6.7)?

Depois de caminhar um pouco e fazer compras, voltei para a casa cedida que mais parecia um forno, sentei-me frente ao ventilador e decidi viver o quanto pudesse sem camisa alguma.

MEU CAFOFO E DEUS

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Paulo Zifum

Meu coração é meu cafofo. Tranco a porta e fico comigo mesmo. Raramente abro para visitas. Receio que alguém saiba demais vendo pequenas desordens.

Meu cafofo tem espaços sem luz, onde pego as coisas tateando. Diversas vezes me machuquei sem saber em que. Desconheço o que tem nele. Temo por isso.

Meu coração tem um pequeno quarto, uma cama pequena e um cobertor curto. A janelinha do quarto em forma de relógio é minúscula, alta, onde subo com esforço numa cadeira velha faltando um pé. A luz que entra por ela alegra meu dia.

Quando a noite chega, com ela as dúvidas. Fico o máximo de tempo na sala, em pé olhando para a luz do abajur. Não consigo sentar no sofá, embora pareça tão convidativo. Digo que não tenho tempo. Meu cafofo tem tudo, mas algumas coisas não funcionam.

Acho bagunçado. Principalmente embaixo do tapete. E no quartinho das coisas que não deram certo, guardo meus cacarecos. Deveria desistir dessa mania de querer consertar tudo.

Considero meu cantinho um lugar mediano. Nem favela nem palácio. Acho-me afortunado pelo conforto das mobílias de tradição cristã, mas, ainda assim,  por vezes, não me acho.

-Senhor! Por que não colocas em ordem esse lugar onde habitas?

Ele apenas sorri e pergunta sobre o que tem para comer. À mesa, após boas risadas, ele fica em pé comigo junto ao abajur. Esqueço, por momentos, o caos e a ordem. Vou dormir no quarto escuro sendo iluminado por aquele sorriso. Pareceu-me que ele se importa mais em cear comigo que arrumar meu cafofo.

A CASCA DOURADA

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Paulo Zifum

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

Mário Quintana

A casca dourada é um salto da poesia. Ela lembra o personagem Balu que dança com Mogli na animação da Disney: “necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”.

O que Quintana quis dizer com “casca dourada”? O tempo é precioso, mas quem pode viver contando? Quando o poeta usa a expressão “casca dourada e inútil das horas” ele, talvez, esteja indicando um dualismo onde ter quantidade nem sempre significa ter qualidade.

Mas,  a expressão também pode ser uma revolta contra a tirania do tempo que nos põe aturdidos na “estranha hospedaria”. Quintana talvez fale sobre o desperdício de viver de modo cauteloso demais, econômico demais.

A vida e o amor parecem voláteis e a exortação cabe bem para os que ficam “juntando cascas” em torno de coisas e coisas e coisas. Por fim, depois de colher um montão de coisas douradas, se perceberá que juntou-se ouro de tolo. Pessoas amadas são mais importantes e cada “casca dourada” com elas nunca poderá ser inútil.

Se Santo Agostinho, que não canso de citar, lesse Mario Quintana, logo diria: “Ame a Deus e tudo fará sentido e nada ficará perdido”.