O MENINO E O GATO

Paulo Zifum

O público era pouco exigente e não se sabe qual o tipo de música. O que sabemos é que o menino ajudava Bianor, dono da peixaria. A arte confunde a gente. Nem sempre sabemos ao certo o que nos atrai. Às vezes, nos enganamos, julgando sermos admirados pelo que temos de elevado, mas as pessoas buscam coisas básicas. Querem calor, amor, e comida. Nada de Rembrandt, de Chesterton ou Bach, o que querem mesmo é peixe!

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NEM TODA CONVERSA FAZ BEM

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Paulo Zifum

Algumas conversas não fazem bem.
É o fim sem amém.
E perguntar além
É cafangar
Fuçar
Vício de curiar
Acaba o repouso da paz.

Algumas conversas não fazem bem.
É o sim para ninguém.
Brigar pelo bem
Do dinheiro amo
Insano
Desarvora o engano
Rouba a beleza que há

O mal entendido
De bem suprimido.
Réu, tribunal, juízo, fel.
Água, copo, tempestade, mágoa.
De uma conversa de morte
Talvez se escape com vida.

Converse, porém
Mantenha distância e pare
porque palavras descem o vale
De assuntos que não fazem bem.

Converse, sim
Mas faça sempre a prova
Pois até a boa nova
Antes do tempo é ruim.

*Cafangar: ameaçar exibindo superioridade

MUY SIMPLES!

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Porque de tal manera amó Dios al mundo, que ha dado a su Hijo unigénito, para que todo aquel que en él cree, no se pierda, mas tenga vida eterna” San Juan 3.16

Muy simples!

O amor é uma ação e não um sentimento. A teoria do amor leva a uma atitude. E a ação do amor é proporcional a seu tamanho. A Bíblia nos oferece uma referência do quanto Deus nos ama. San Juan nos fala que o amor de Deus toma a referência da relação pai-filho. Qual pai daria seu filho para salvar outra pessoa? Para entendermos o amor de alguém precisamos de referências. É isso que o texto nos oferece.

Porém, é possível que eu não corresponda ao amor ofertado por não compreender as referências. Posso desperdiçar o amor apontado a mim por falta de entendimento. Com a idade é normal que os filhos, ao crescerem e se tornarem pais, escutem um click no cérebro: é o coração dando acesso à referência do amor. Nessa hora, felizes os filhos que podem correr até a casa do pai e da mãe para dar um abraço redentor e expressar gratidão.

A compreensão do amor humano é uma pequena salvação, mas entender o amor de Deus expresso na vida e morte de Seu Filho, acessa a vida eterna.

 

QUANDO ESTIVER NO CARMELO

Paulo Zifum

Quando você passar pelo Carmelo, lembre como Davi perdeu o bom juízo com Nabal. Todos passamos por lugares onde profundas lições foram deixadas.

Haifa é o nome atual da antiga cidade Carmelo. Região próxima de Jerusalém onde se encontra o famoso Monte Carmelo e que foi palco sobrenatural do profeta Elias (1Rs.18.19-40).

Foi para essa região que Davi, jurado de morte pelo Rei Saul, se refugiou com um bando de homens suspeitos (1Sm.22). Os milicianos liderados por Davi, pararam junto a uma fazenda e pediram comida. Armados, podiam tomar, mas ofereceram proteção em troca de comida. As milícias cobram serviços que não foram contratados, mas é melhor pagar, porque nunca se sabe se o guardador é ou não bandido (é como pagar anti-vírus feito pelo hacker para não que ela não invada seu computador).

O texto de 1 Samuel 25 nos conta que Nabal, dono da fazenda, ao saber que estavam cobrando por proteção, negou pagar o convênio. Davi pediu com muito respeito e Nabal respondeu com total desprezo e ainda insinuou que Davi era bandido. A porcaria estava feita!

Davi não estava em seus melhores dias, tocando harpa e compondo salmos. Tinham se juntado a ele homens “barra pesada”. Esses homens esperavam que Davi os liderasse e, quem sabe, os recuperasse. Porém, ao ser ofendido, Davi reage de modo desproporcional:

De nada adiantou proteger os bens daquele homem no deserto, para que nada se perdesse. Ele me pagou o bem com o mal. Que Deus castigue a Davi, e o faça com muita severidade, caso até de manhã eu deixe vivo um só do sexo masculino de todos os que pertencem a Nabal” (1Sm.25.21).

Carmelo, alegoricamente, é um lugar perigoso onde ofensas podem deflagrar uma guerra. E quando a ira transborda surge o duelo sob o mote “quem pode mais, chora menos”. O mais forte pode esmagar o mais fraco, ou o vulnerável pode se emponderar e surpreender.

A questão é que no Carmelo os homens perdem a razão, perdem o senso de justiça. A raiva cega de uma maneira que nos tornamos incapazes de receber um simples “não”. É direito do outro não querer partilhar o que é seu. É direito do outro discordar, não amar ou não querer honrar.

Quando Davi diz que Nabal pagou o bem com o mal, estava falando de algo que não foi combinado, de contrato que não tinha sido feito. Nabal tinha o direito de negar. Davi deveria sair das terras dele e procurar outro lugar para prestar serviços.

Porém, Nabal não apenas negou, ele ofendeu a Davi, o que foi desnecessário, senão, desastroso. E é nessa hora que Davi, irado, deixa queimar seu ódio de pagar o mal com o mal. Davi esquece o código “olho, por olho, dente por dente” e aplica, de modo desmedido o “olho por dente”.

Carmelo é um palco de injustiças, maldades, críticas infundadas, preconceitos e vinganças.

Quando você passar por ali, cuide de suas reações, porque o Diabo deseja ver o monte pegar fogo, e esse fogo não tem relação com justiça alguma. O veneno de fazer justiça com as próprias mãos que atingiu Davi pode lhe atingir também.

1 Samuel 25:21,22

 

QUANDO ESTIVER EM BAURIM

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Paulo Zifum

Quando você passar por Baurim, lembre de como Davi reagiu com Simei. Porque passamos pelos mesmos lugares nesse mundo pequeno e, bem-aventurados aqueles que aprendem com a História.

O registro está em 2 Samuel 16.5-14. O Rei Davi fugia de Jerusalém, não porque o Golpe de Estado de seu filho Absalão tinha dado certo, mas porque buscava, de certa forma, uma autopunição. Davi tinha poder para derramar sangue em Jerusalém e sufocar o levante frágil de seu filho, porém o velho rei carregava consigo culpas antigas. Sua falta de habilidade com os filhos já era evidente, agora, surgia um escândalo nacional. Davi não conseguia se ver disputando o poder com o próprio filho. Permitiu que Absalão usurpasse o trono e saiu pelos fundos da cidade, acabado.

Arrastando-se pelo caminho, ao chegar em Baurim, cidade próxima da capital, um homem descontrolado apareceu. Simei, tio do rei Saul, escancarou todo seu ressentimento, invocando uma narrativa bem particular do trama palaciana que envolveu Davi e Saul. Pelos registros, Simei estava equivocado em acusar Davi de ser a causa da ruína do Reino de seu sobrinho. Davi havia sido vítima de Saul, e o próprio filho de Saul tentou salvar  Davi das mãos do pai raivoso.

Simei fez algo insano. Ataca pedras no rei e grita: “Assassino! Bandido!”. E faz isso na frente da guarda real . Como era um parente do rei Saul, os guardas precisavam de permissão para arremeter. Davi proíbe sua escolta de reagir e declara:

Ele me amaldiçoa porque o Senhor lhe disse que amaldiçoasse Davi. Portanto, quem poderá questioná-lo? Até meu filho, sangue do meu sangue, procura matar-me. Quanto mais este benjamita! Deixem-no em paz! Que amaldiçoe, pois foi o que o Senhor lhe mandou fazer. Talvez o Senhor considere a minha aflição e me retribua com o bem a maldição que hoje recebo“.

Ver Davi naquela situação de fugitivo, perdendo o trono, o levou Simei a uma precipitada conclusão. E, quem está isento disso? Quem de nós nunca interpretou um sofrimento alheio com a desconfiança de punição? Simei, assim como toda nação, conhecia os exageros e pecado do rei, mas, quem ousaria acusar um monarca em público. Mas, ao ver Davi vulnerável, sem trono, Simei julgou ser a ocasião para fazer seu tribunal pessoal e desentalar aquela raiva contida.

Baurim, alegoricamente, é um lugar perigoso onde as pessoas se inflamam com o provocante tema da justiça. O que é justo? Como devemos reagir quando somos acusados?

Baurim é um exemplo de como os tribunais humanos podem ser levantados nos lares, em escolas, nas empresas, nas redes sociais ou em qualquer lugar onde se dê lugar à ira.

Baurim pode ser uma tragédia onde cabeças rolam, onde quem se vitimiza inspira o fio da espada dos vingadores. Surgem as disputas de narrativas: -Simei está certo! -diz quem perdeu cargo no palácio. -Não! Davi é inocente! -diz um palaciano.

Mas, a atenção em Baurim está em Davi, que surge nobre, que reage de um modo incomum. Ele não se vitimiza e não se vale da escolta armada para se defender. Antes, segue um caminho elevado que é a busca pela verdade e pela justiça diante de Deus. Davi não acreditava mais em tribunais de acaso. Ele considera aquela situação atípica, carregada talvez de um mistério. Estaria Deus julgar seus segredos e pecados?

Baurim é o lugar onde você pode, de vez, deixar a esfera do julgamento humano e voltar-se para o justo Juiz. É um lugar ideal para se humilhar diante daquele que tudo sabe e tudo vê (Hb.4.12-13). Em Baurim, em vez de me defender do julgamento dos homens, posso me cobrir de afronta e deixar o flagelo cortar o mal que só eu sei sobre mim mesmo.

Baurim pode ser uma espécie de Calvário onde tomo minha cruz. Davi negou-se a sim mesmo, abriu mão de seu direito, mostrando que, o raciocínio de morrer para, talvez viver, o levaria a encontrar a justiça divina.

Documentos: Antes de Baurim, Davi já havia escrito um Salmo: “reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me. Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação” (Sl.51:3,4,14). O documento prova que a reação com Simei foi coerente com sua confissão.

 

CICATRIZ

Sem títuloPaulo Zifum

Pedirei para ver as marcas dos pregos em suas mãos. Todos sabem que, nessas feridas, repousam a beleza da eternidade

Meu pai me contava histórias mostrando cicatrizes, falando de perigos e aventuras que enchiam meu aguçado imaginário infantil. Quando meus filhos nasceram fiz o mesmo com eles contando a história por trás das marcas de pernas e braços. Porém, não tinha nenhuma cicatriz que fosse redentora

Mas, meu Senhor, sim! Ele carrega cicatrizes de sua luta contra o mal, para salvar a mim. Nunca ouvi dele o Evangelho, dele mesmo. Porém, um dia, sonho assim: apontarei para suas mãos e pedirei: “conta-me novamente essa história”. Choro só de pensar!

Tela: Incredulidade de Tomé – Caravaggio ilustra João 20.27

 

TRAVESSEIRO DE PEDRA

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Paulo Zifum

Pegou uma pedra daquele lugar para servir como travesseiro e se deitou ali mesmo para dormir.  Então Jacó sonhou” Gênesis 28.11

A circunstância te leva a fugir estrada afora, só. Quem nunca viveu isso, não sabe o que é um relento emocional, onde a alma cansada aceita qualquer pousada. Jacó não tinha vivido uma vida original até aqui. Deram a ele o roteiro errado, assim como a maioria de nós recebe. Faça isso! E agora, aquilo! Aturdidos e culpados, alguns filhos de Deus reclinam a cabeça numa pedra sem saber o que fazer da vida. E é nessa hora que surge o contraste. A vida é dura, mas, o sonho é lindo!

Tela: Solidão no Amanhecer , 1796 por Johann Heinrich Füssli (1741-1825)