SHIBOLET: OU VOCÊ É OU…

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Paulo Zifum

shibōleth: do hebraico שבולת  (espiga de grãos-torrente de água)

Depois do incidente narrado no livro de Juíze 12.1-15 a expressão foi apropriada para indicar uma peculiaridade de pronúncia que serve para identificar um determinado grupo linguístico, funcionando praticamente como um tipo de senha linguística.

Numa disputa, os gileaditas bloquearam todas as passagens para o rio Jordão a fim de evitar que os efraimitas sobreviventes escapassem. Os gileaditas fizeram todos os que por lá passassem pronunciar a palavra shibōleth, mas como os efraimitas não tinham o fonema /ʃ/, pronunciavam siboleth, com /s/, sendo assim reconhecidos e executados.

Sempre me divertia com meu amigo venezuelano pedindo para ele pronunciar a frase “no poço não posso”. Ele sabia qual era o substantivo e qual era o verbo, mas na hora de falar ele dizia “no poço no poço”. As línguas tem suas sutilezas, e algumas são mais fáceis de aprender e outras um perigo para os estrangeiros que podem causar uma grande confusão errando um fonema ou uma entonação.  Estrangeiros podem se até evitar os falsos cognatos, mas muita vezes não conseguem escapar da sutilezas de pronúncia.

Estudando Teologia Reformada senti-me seguro de que já sabia o suficiente. Achando-me um reformado, fui fazer um exame, e lá me pediram para dizer shibōleth. Senti na pele o que o uruguaios passaram no sul do Brasil durante as revoluções de 1893 e de 1923. Pediam para eles pronunciarem a letra J ou a palavra pauzinhos. Eles diziam “xôta” e “paucinhos”.  Eu que me achava quase um “nativo” virei forasteiro. Não fui executado, só reprovado e posto para aprender melhor o pensamento reformado.

O apóstolo João registrou que o Espírito Santo haveria de nos ensinar. Paulo ensinou o Espírito opera em nós a identidade com Cristo (espírito de adoção) e  que “ninguém pode dizer Jesus é o Senhor senão pelo Espírito” (1Co.12.3). João reafirma que os homens são distinguidos pela doutrina (1Jo.4.2).

A confissão que salva não pode ser qualquer confissão, mas “se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm.10.9). 

Shibōleth (alegoricamente aqui como “Evangelho”) identifica os eleitos, e Deus, em sua misericórdia, “não levando em conta os tempos da ignorância” (At.17.30),  “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm.2.4). Todos os eleitos, embora tropecem no presente, aprenderão a dizer shibōleth, nem que seja como o ladrão da Cruz na última hora.

 

LEI para os REFORMADOS

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Paulo Zifum

O livro Continuidade e Descontinuidade traz a abordagem sobre a Lei de Moisés. Um do autores, Knox Chamblin, afirma que a Lei aponta para Cristo e sua obra. Para ele, o leitor que lê Moisés e entende o propósito da Lei está pronto para crer em Jesus. Cristo é o objetivo, Senhor e mestre da Lei. Cristo é a realidade, a Lei, sua sombra que o antecedia.

Chamblin reafirma a tradição reformada de que há continuidade nos “usos” da Lei. os reformados não negam que na progressão da revelação há descontinuidade (antítese) nos pontos onde o propósito maior foi cumprido em Cristo, mas os princípios da lei que educam o povo de Deus, continuam. A parte cerimonial central da Lei que era o sistema sacrificial foi resolvida de uma vez por todas na Cruz de Cristo, ficando os ritos do Batismo e da Ceia como marcas distintivas do povo da nova aliança.

Os “usos” da Lei, destacados por Melanchton, são:

  • Uso político (civil) que assegura a ordem social e a justiça entre os homens
  • Uso teológico (pedagógico) que revela a pecaminosidade humana
  • Uso normativo que norteia a conduta

Para os cristãos que vivem no mundo onde leis humanas e ideologias relativizam a moral, o Lei permanece como norma para fornecer regras de vida, não sendo oprimido pelo legalismo porque sabe que foi justificado pela fé na obra redentora de Cristo.

Calvino e Lutero concordavam com os “usos” da Lei, mas tinham ênfases distintas. Calvino dava mais ênfase no uso normativo da Lei.

As “dimensões” da Lei:

A Lei aponta para Cristo em todas as suas dimensões (moral, cerimonial e civil). Cristo, em seu tríplice ofício usou a Lei como profeta superior a todos, a explicando de modo inédito, decisivo e conclusivo no Sermão do Monte. A interpretação de Cristo como profeta (e autor da Lei) é a chave para entender a Torah. Cristo cumpriu cabalmente as exigências da Lei cerimonial como perfeito Sumo Sacerdote em seu autosacrifício, morrendo na Cruz. E por meio da Lei assumiu para sempre o governo civil como Rei como legislador e redentor do seu povo (rex lex).

Justificação e Lei (Calvino)

“Nós devemos buscar de Cristo o que a Lei daria se alguém conseguisse cumpri-la; ou, o que é a mesma coisa, que obtenhamos através da graça de Cristo o que Deus prometeu na Lei em troca de nossas obras: “Aquele que fizer estar coisas, ele viverá por elas” [Lev.18:5]… Pois se a justiça consiste em observância da Lei, quem negará que Cristo mereceu favor por nós quando, ao tomar o fardo sobre si, ele reconciliou-nos com Deus como se nós tivéssemos cumprido a Lei?” Calvino -Inst. II xvii.5

Lei e Evangelho (Theodoro de Beza)

“Lei e Evangelho não são contrários na essência da justificação mas no meio de obtê-la”

LEI (NATURAL)
Justiça Exigida
Benção mediante obediência pessoal
Ressalta o pecado

EVANGELHO (SOBRENATURAL)
Justiça Satisfeita
Benção obtida por fé nos méritos de outro
Traz o perdão e libertação do pecado

Gráfico relacional (Chamblin)

“A Lei de Moisés está relacionada para a Lei de Cristo, não como A para A ou A para B, mas como A1 para A2” pg.221

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“A Lei é revelada com base na redenção, não como a base, não como meio de salvação, mas como guia para mostrar gratidão por uma salvação que Javé já havia realizado” p.223  “A lei é o presente de casamento de Javé à sua esposa, para selar o vínculo entre eles” p.224

O gráfico mostra a continuidade, sendo o Sermão do Monte a elevação do conceito da Lei sinalizada no “eu porém vos digo” de Jesus. Os reformadores defendiam o sentido histórico-redentivo da Lei em sua UNIDADE DE SUBSTÂNCIA (AT e NT apontam o mesmo caminho de salvação) e em sua DISTINÇÃO NA FORMA (AT expressa a graça, mas não em sua plenitude).

Lei e Graça

A Lei expressa a Graça de Deus e o Catecismo de Heidelberg ao aborda-la a intitula como “Gratidão”. A Lei é uma aliança proposta por um Deus amoroso que oferece a seu povo a segurança contra os efeitos do pecado. Não sendo possível evitar o pecado a Lei providenciava cerimoniais que se repetiam de modo que o pecador aguardasse aquele que de uma só vez os livraria do pecado, Cristo. 

CONCLUSÃO: 

A lente hermenêutica reformada considera a antítese entre Lei e Evangelho, mas considera continuidade dos mandamentos e promessas da antiga aliança absorvida na nova.

 

 

A CARNE COSTUMA SUSPIRAR

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Paulo Zifum

“E, por isso, deve-se saber que tudo quanto de felicidade em Cristo nos foi prometido não consiste em proveitos exteriores, de sorte que levemos uma vida alegre e tranqüila, floresçamos em riquezas, estejamos livres de todo malefício e retrocedamos das delícias pelas quais a carne costuma suspirar. Pelo contrário, consiste no que é próprio da vida celeste.” Calvino – Institutas II-XV

Eu quero, muito, uma vida alegre e tranquila e florescer em riquezas. Quem não quer? E não há nada errado em desejar essa prosperidade. O problema não é a coisa em si. O que percebo em mim é que “suspiro” mais, com mais frequência a ponto de ter ansiedade, não é pelo Reino de Deus que já avisto, e sim pelas coisas aqui que gostaria de tocar.

OS ELEMENTOS DO CULTO CRISTÃO

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Michael Horton
Um caminho melhor –Ed. Cultura Cristã

Texto adaptado

Se o culto deve ser centrado em Cristo, então não deveríamos nos
mover dos tipos e sombras dos mandamentos de Deus no Antigo
Testamento para nossos próprios tipos e sombras que não apontam
para Cristo, mas para nossas imagens imaginativamente concebidas e
para nossas “experiências de culto”. Conquanto Deus tenha ordenado
que nos reuníssemos no Dia do Senhor, ele não prescreveu que isso
ocorresse às 10 ou 19 horas. Os cultos nas igrejas apresentarão variações,
de maneira plenamente adequada; algumas coisas são necessárias, e
outras, dependerão das circunstâncias de tempo e lugar. As primeiras,
nós chamamos de elementos (isto é, as prescritas), e as segundas, de
circunstâncias (isto é, deixadas à discrição das igrejas). Ofertório é um
elemento, e a maneira como o fazemos é uma circunstância. Seguindo
esse raciocínio, portanto, consideremos, brevemente, o que poderia
ser considerado uma liturgia ou ordem de culto legitimamente bíblica,
no culto da nova aliança. pg.171

Horton elenca os elementos:

  • INVOCAÇÃO: O Culto deve ser iniciado com a leitura da Bíblia e o texto apriado deve aquele que invoca os termos do tratado de suserania entre o Senhor e seu povo. O Culto a Deus deve propositalmente demonstrar submissão expressa do tipo “O Senhor nosso Deus, é o único Deus”, “Pai nosso que estás no céu, santificado seja o teu nome”. E a invocação do Culto Cristão se distingue de outros cultos religiosos porque invoca não um deus qualquer, mas o Deus Trino.
  • RESPOSTA DE DEUS: O povo invoca o nome do Senhor, e logo após o ministro transmite a resposta: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13). Dessa certeza vem a saudação para o início do Culto: “graça e paz a vós todos que assistis na casa do Senhor”.
  • A LEITURA DA LEI: O deve seguir dentro do pacto, do tratado entre Javé e seu povo, por isso se faz necessária a leitura dos termos do tratado e de suas sanções. Aqui, reunido na corte de Deus, o povo ouve a leitura dos mandamentos e reconhece sua pecaminosidade. A leitura da lei poderá ser na forma dos Dez Mandamentos ou na forma do resumo de Jesus. Algumas vezes, o ministro poderá ler em Gálatas 5.16-26, ou o trechos do Sermão do Monte. Esse momento de confronto faz que os pecadores examinem se são tão bons quanto pensavam diante de Deus.
  • CONFISSÃO E ABSOLVIÇÃO: Após o impacto da Lei, o Culto toma o caminho seguro para a verdadeira adoração. E qual seria a verdadeira adoração? Para pecadores ela começa com o reconhecimento da santidade de Deus e corre para Jesus Cristo em busca de redenção. Quando pecadores confessam seus pecados concordam a Lei que é boa e mostram reverência diante de Deus. E é neste momento que a bandeira do Culto Cristão se distingue dos outros cultos: A Igreja ministra aos pecadores a presença do único mediador entre Deus e os homens.

Calvino, sobre a confissão diz:

Aquela [confissão] ordinária, além de que foi recomendada pela
boca do Senhor, pesada a sua utilidade, ninguém [de] são [juízo],
ouse desaprová[-la]. Ora, uma vez que em toda reunião religiosa
nos postemos diante de Deus e dos anjos, que outro nos será o
ponto de partida do proceder senão o reconhecimento de nossa
indignidade? 

Quando o Culto Cristão está na direção bíblica, o pecado é tratado e o pecador recebe absolvição pelos méritos de Jesus Cristo. Nesse contexto a Igreja usa “as chaves do Reino dos Céus” (Mt.16.19; 18.18) para conduzir pecadores arrependidos a crer no perdão oferecido no Pacto da Graça.

  • ORAÇÃO PASTORAL: Ministros intercedem, não mediam. Os pecadores já se achegaram junto ao trono da graça, e nesta hora, junto a este altar (não físico, mas  imaginário, não de pedra, mas na imagem da Cruz) o pastor ora conforme Neemias orou: “E disse: ah! Senhor, Deus dos céus, Deus grande e temível, que
    guardas a aliança e a misericórdia para com aqueles que te amam
    e guardam os teus mandamentos! Estejam, pois, atentos os teus
    ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu
    servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de
    Israel, teus servos; e faço confissão pelos pecados dos filhos de
    Israel, os quais temos cometido contra ti; pois eu e a casa de
    meu pai temos pecado… Estes ainda são teus servos e o teu povo
    que resgataste com teu grande poder e com tua mão poderosa.
    Ah! Senhor, estejam, pois, atentos os teus ouvidos à oração do
    teu servo e à dos teus servos que se agradam de temer o teu
    nome; concede que seja bem-sucedido hoje o teu servo e dá-lhe
    mercê perante este homem. Nesse tempo eu era copeiro do rei.
    Neemias 5-6, 10-11
  • CEIA DO SENHOR: Assim como João Batista oferecia aos pecadores uma experiencia de pública confissão, assim a Ceia do Senhor oferece aos culpados a graça de Cristo.  No ato da Ceia o Evangelho deve ser pregado e os pecadores certificados da morte vicária do Senhor. Novamente o auto-exame é pedido e ao comer do pão e beber do cálice os pecadores sentem a graça do Senhor que garante-lhes a remissão dos pecados. A Ceia não apenas confirma a Igreja Local de sua união com o Corpo místico de Cristo, mas a lembra que o Senhor ira voltar para busca-la, ficando a exortação final para que se vigie.
  •  PREGAÇÃO DAS ESCRITURAS: Esse é um dos principais elementos do Culto e meio de graça para o povo de Deus. Nesta hora o ministro bem treinado exerce o legítimo ministério profético que é a exposição das Escrituras para ensinar, exortar e consolar o povo de Deus. Esse ato garante ao povo alimento espiritual para possam crescer para a salvação.
  • GRATIDÃO E OFERTAS: O Culto inclui o momento de ofertar como gratidão, como disse Paulo: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria”. ( 2Co.9:7). A oferta é o momento específico onde o povo de Deus dá graças pelas bençãos colhidas, pela provisão. É também o momento em que a comunidade dá garantia de generosidade e de que há mantimento de modo que não haja necessitados no meio da Igreja.
  • BENÇÃO: Depois do povo buscar a Deus e adora-lo seguindo as prescrições de sua Palavras, o ministro crê que o rebanho está protegido embaixo da poderosa mão de Deus, por isso deve despedir o povo invocando sobre eles a benção apostólica: “Que a graça do Senhor Jesus, e o amor de Deus Pai e as consolações do Espírito Santo sejam com todos. Amém”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS de Horton

“A coisa importante a ser considerada em tudo isso é que o culto de
adoração é o drama divino. Nele, o drama da redenção que se desdobra na História agora é encenado como uma cena dentro da cena diante de cada um de nós em nosso próprio tempo e lugar. Nisso, nos juntamos a Abraão e Sara à mesa, com o seu grande Filho por meio de quem as nações e as famílias da terra são abençoadas. Com o coração
circuncidado, nos juntamos à nuvem de testemunhas que ansiaram pela vinda de Jesus e pelo envio do Espírito. Não apenas uma vez, mas semana após semana, anos após ano, década após década, vamos sendo refeitos por esse contradrama à medida que esse mundo mau e transitório cede lugar ao mundo vindouro.” pg.187

 

Cada um compõe a sua história?

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Paulo Zifum

Renato Teixeira, músico e poeta, escreveu teologia imprecisa ao declarar que o destino pode ser traçado por nossas escolhas. Esse é um mistério. Segundo a Bíblia, Deus é o escritor. Não sabemos como é possível compor com Ele.
Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco eu sei
Ou nada sei
Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou

OS TRÊS PACTOS

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R. C. Sproul

A relação de Deus com a a humanidade está baseada em Três Alianças ou Pactos.

Pacto da Redenção 
Esse pacto foi realizado entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo antes da fundação do mundo para redimir o eleitos. O plano de redenção de Deus não foi nenhuma reflexão posterior, designado para consertar uma criação que desandou. Não há “plano B” para o Deus eterno e onisciente. Pensar nesse pacto nos ajuda a crer na harmonia da Trindade em todos os atos na história da redenção.

Pacto das Obras
Deus, segundo a Confissão de Westminster, ao criar a humanidade estabeleceu que a vida prometida a Adão e nele à sua posteridade estaria “sob a condição de obediência perfeita e pessoal”, ou seja, Deus fez um pacto condicional. Nele não há como desfrutar felicidade eterna sem a obediência da Lei. Essa é a condição para receber a benção pactual: obediência perfeita e pessoal. Não há possibilidade de se aceitar nada parcial: “toda alma que pecar, essa morrerá” (Ez.18.4), ou seja, qualquer pecado. Quando a Confissão usa o termo “pessoal” refere-se ao trato individual, não sendo possível o transgressor escapar do juízo pelo benefício de outro ou de qualquer coletividade.

*Zifum: O fato de Adão e Eva não morrerem imediatamente, talvez, ressalte a ruptura entre a parte material e imaterial do homem, que dá lugar à feiura da morte que é a degeneração. O corpo pode estar vivo, mas condenado na desventura (Rm.7.24). E dentro do corpo jaz um espírito morto (Ef.2).

Pacto da Graça
A Confissão de Westminster assevera: “O homem, tendo-se tornado pela sua queda incapaz de vida por esse pacto, o Senhor dignou-se fazer um segundo pacto, geralmente chamado o pacto da graça; nesse pacto ele livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação por Jesus Cristo, exigindo deles a fé nele para que sejam salvos; e prometendo dar a todos os que estão ordenados para a vida o seu Santo Espírito, para dispô-los e habilitá-los a crer”. O pacto de obras foi feito antes da queda entre Deus e suas criaturas, o pacto da graça agora é entre Deus e os pecadores.

 

QUEBRAR O PACTO

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Paulo Zifum

Por que quebramos nossos votos? Por que as pessoas não conseguem viver segundo suas palavras e intenções de fidelidade?

Não quebramos tudo, mas algumas coisas não conseguimos manter. Se declaramos que “não temos pecado algum enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo.1.8). A pergunta não é se quebramos ou não, mas sim porquê anulamos nosso compromisso.

Por falta de Confissão 
Embora saibamos que “fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável” (Lutero), mesmo assim, andamos constantemente por esse terreno nos pensamentos, sentimentos e atitudes. Uma das razões é a falta de uma confissão verbal que se antecipa e se repete para não se desviar ou esquecer. A palavra grega ομολογεω (homologeo) significa concordar com, consentir, não rejeitar, prometer, declarar abertamente, falar livremente, professar a si mesmo, louvar, celebrar. Pecadores precisam de uma Confissão constante e o Salmista nos confirma isso: 

Quem dera que os meus caminhos fossem dirigidos a observar os teus mandamentos.
Então não ficaria confundido, atentando eu para todos os teus mandamentos. Louvar-te-ei com retidão de coração quando tiver aprendido os teus justos juízos. Observarei os teus estatutos; não me desampares totalmente. Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra. Com todo o meu coração te busquei; não me deixes desviar dos teus mandamentos. Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti Salmos 119:5-11 

Neste Salmo o autor escreve 176 versos onde revela sua preocupação de quebrar seu pacto com Deus. O efeito desse tipo de confissão é seguro, não porque repetir positivamente algo que se quer seja eficaz, mas por ser feito na presença de Deus. Não é uma confissão de si para si mesmo, mas uma súplica dirigida ao sustentador da aliança.

As pessoas quebram seus votos porque, quando estão na fase do desejo, silenciam a confissão existente na consciência (Rm.2.15). Os pecadores convencidos do perigo, clamam pelo auxílio divino, fazendo da Confissão sua estrada.

Por falta de conhecimento
A consciência humana pode existir, toda vida, estritamente no universo físico. Então, tomamos cuidado com os perigos que podem atingir nosso corpo ou parte mais sensível dele (o bol$o). Esse reducionismo leva a ignorar a parte espiritual que tem efeitos tão reais quanto a física. Se quebrar alguma das leis da física sofrerá imediatamente o impacto. Pular do 10º andar não é uma aventura, é suicídio. Assim, alguns pecados (pensamentos, sentimentos, palavras e atos) não tem volta. Alguns pecados são como pintar o cabelo e outros como uma tatuagem, mas existem pecados que nos infectam atingindo em segundos nossa mente e coração. Alguns pecados ficam encubados e demoram para se manifestar. Quebramos votos por achar que isso não terá uma consequência tão severa. Ledo engano!

*LEDO: que revela ou sente alegria, júbilo, felicidade; contente, risonho, prazenteiro.

Por falta de amor
Sim! Quebramos alianças por falta de amor a Deus e às pessoas. A síntese do mandamento universal (inclusive para os ateus) é: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Os males do mundo estão relacionados à quebra desse resumo dos 10 mandamentos. O amor a Deus é inteligente porque nos tornamos aquilo que adoramos. Amar a Deus é buscar a grandeza, a beleza, a justiça, a bondade e a eternidade. Abaixo do Criador estão as coisas criadas, inferiores a ele. Quebramos o primeiro mandamento quando decidimos amar as criaturas em lugar do criador. E essa é a razão da Queda. Nunca o ser humano conseguirá ser tudo que poderia ser amando primeiro o que é inferior. E, consequentemente, quando quebramos o primeiro mandamento perdemos a fonte da graça de Deus, que é o amor incondicional. Não conseguimos amar as pessoas pelo que são e sim pelo que nos oferecem.

Dois pensadores podem nos ajudar a entender esse corte da Queda:

Santo Agostinho questionou “quid autum amo, cum te amo?“. Ele falava a Deus, mas se aplicarmos a pergunta aos relacionamentos, podemos desconfiar. Quando um marido diz que ama a esposa, ele ama a esposa ou a vantagem do consórcio conjugal? Ama o sexo, o status social ou a pessoa? Quando pais dizem que amam os filhos, amam a realização ou aquele ser como livre? Quando deixamos de amar a Deus pelo que Ele é , nos tornamos incapazes de amar verdadeiramente e sermos fiéis às pessoas sem negociar.

Tim Keller em seu livro o Significado do Casamento, explica que o fracasso de um pacto está em sua base (pg.99-100). Devido à condição do pecado, as pessoas preferem estabelecer relações de “consumo” em vez de “aliança”. A primeira dura enquanto a contrapartida for vantajosa, a segunda é sustentada pelo caráter e palavra empenhada. Muitas quebras de compromisso revelam que não havia uma aliança verdadeira, mas uma relação de consumo.

Pela falta de estrutura
Uma pessoa pode ter as melhores intenções quando faz uma promessa, mas a estrutura é que há de sustentar o pacto. E são as dificuldades que colocam os compromissos à prova. A casa pode ser de concreto, mas se a base for areia, nada susterá vindo a chuva. Foi essa metáfora que Jesus usou para concluir o seu Sermão do Monte, onde o Senhor como autor da Lei escrita por Moisés, a interpreta para estabelecer a Nova Aliança. Ele afirma que não há como o ser humano sustentar sua vida sobre a areia da subjetividade filosófica, da novidade cultural, das convenções sociais. A sabedoria humana é areia. Só podemos sustentar nossas vidas se construirmos sobre a rocha que é ensino do Senhor, que é o próprio Cristo.

Quebramos pactos pela falta de confissão, conhecimento e amor, e isso mostra a falta de estrutura. Sendo Cristo nossa base, podemo voltar ao primeiro mandamento e também a amar as pessoas pelo que são. Nossa consciência liberta e esclarecida pela verdade nos levará a confirmar nossa confissão diante de Deus e dos homens como fez José no Egito:

depois de certo tempo, a mulher do seu senhor começou a cobiçá-lo e o convidou: “Venha, deite-se comigo! ” Mas ele se recusou e lhe disse: “Meu senhor não se preocupa com coisa alguma de sua casa, e tudo o que tem deixou aos meus cuidados. Ninguém desta casa está acima de mim. Ele nada me negou, a não ser a senhora, porque é a mulher dele. Como poderia eu, então, cometer algo tão perverso e pecar contra Deus
Gênesis 39:7-9

Foto: Capa do livro de G. K. Beale onde aparece o Bezerro de Ouro (referência do primeiro momento de quebra da aliança de Israel após a saída do Egito)

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COMO TER QUALIDADE DE VIDA?

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Paulo Zifum

Como posso alcançar melhor qualidade de vida?

Desde a queda de Adão e Eva a qualidade de vida humana oscila entre o tolerável e o precário. E eles caíram devido ao conhecimento vacilante que tinham sobre Deus. Como  a maioria de nós cai nas mais tolas sugestões, eles aceitaram uma informação totalmente contrária ao que Deus é. Depois de pecarem a vida entrou em contagem regressiva, conforme Deus havia dito.

E saber que vai morrer não é necessariamente a causa das ansiedades, deslocamentos, depressões e desesperos humanos. Pessoas belas, saudáveis, cercada de afeto e abastadas podem ainda assim revelar péssima qualidade de vida. Há um tipo de vazio que nada pode preencher, porque a vida estritamente material e mecânica gera dúvidas, medos e estranhamentos. Isso explica porque num mundo tão cheio de “conhecimento” e de avanço científico os dramas humanos não são solucionados. Os avanços na área da saúde proporcionam mais aniversários, porém muita gente tem menos razão para festejar.

Os teólogos não duvidam que a Ciência melhorou a qualidade de vida de milhares de pessoas, mas os sociólogos não escondem a preocupação com o índice de pessoas depressivas, as autoridades são alarmadas com o crescente aumento do uso de drogas e mortes precoces. O suicídio é tema em fóruns.

O que falta? 
O conhecimento de Deus.

Pois lhe deste autoridade sobre toda a humanidade, para que conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” Jo.17.2-3

Jesus disse que está nas mãos dele o “deixar viver”. E esse viver que ele pode conceder não é um bem-estar temporário, mas eterno. E o que há de tão maravilhoso na vida eterna senão o acesso ao conhecimento de Deus?

O próprio Deus colocou em nós esse sentido aguçado por explorar o conhecimento, por aprender e saber a origem da coisas. Ele provocou em nós uma escalada para Ele mesmo. E é dessa expedição que Davi fala no Salmo 139 e Paulo exclama em Romanos 11.33-36. E pode ser uma jornada eterna em busca dos mistérios de Deus.

Na idade média os cursos universitários eram estruturados a partir da teologia, considerada a rainha das ciências. Thomás de Aquino disse que a Theologia Deum docet, a Deo docetur, ad Deum ducit (a teologia ensina sobre Deus, é ensinada por Deus, e conduz a Deus). Outros pensadores como Descartes e Newton deixaram claro que o conhecimento de Deus os movia a pesquisar.

Agora, onde podemos acessar o conhecimento de Deus? 
Segundo a Bíblia, não é possível ao homem acessar por si com recursos próprios o conhecimento de Deus. Ele revelar ou esconder segundo seu agrado (Mt.11.25-26). Deus se revela por meio da criação, mas o conhecimento salvífico está em Jesus (Cl.2.9) e nas Escrituras (Jo.5.39). Temos na Bíblia o acesso ao conhecimento seguro sobre Deus, porém esse acesso não nos é dado apenas pela leitura perspicaz, mas pelo Espírito Santo que nos faz entender. Sem essa revelação os homens “ouvirão, mas não entenderão, verão, mas não serão capazes de perceber… ficarão surdos e fechados os seus olhos e incapazes de entender com o coração” (Is.6.9-10).

Quando Deus nos é revelado, tudo começa fazer sentido. As questões de origem, de identidade e destino são solucionadas. Quando o Espírito Santo nos faz crer que Deus é totalmente bom e totalmente poderoso, o grande problema da existência do mal deixe de ser uma ameaça para nossa fé. O Espírito nos guia a confiar que Deus ao permitir o mal está fazendo bom acima de compreensão. Segundo Dr. Jonas Madureira, esse conhecimento envolve mistério, mas nele não há irracionalidade, aponta para algo verdadeiro, porém suprarracional.  (Inteligência Humilhada p.125).

Quais os exemplos onde o conhecimento de Deus atinge nossa qualidade de vida?

Jó: A resposta de Jó sobre a pergunta “por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?” foi com base no conhecimento teológico que ele tinha sobre a bondade e a soberania de Deus. As perdas e infortúnios que atingem a humanidade entristecem, mas sem um conhecimento de Deus há um “cair sem fim” que se transforma num ressentimento ou incapacidade de confiar. Crer que não há nada que Deus não saiba e não controle, nos leva a ver a vida além desta. Esse tipo de conhecimento leva uma pessoa a administrar os bens sem achar-se dono deles.

Jacó: A atitude de Jacó para com seu irmão Esaú e para com seu pai Isaque mostram o conceito baixo que Jacó tinha de Deus. O desespero e ansiedade são fraquezas que denunciam a falta de confiança nos métodos de Deus. Jacó age como sua avó Sara e se precipita tentando alçar a benção antes da hora. A cura para ansiedade de Jacó está na palavra de Jesus: “não andeis ansiosos quanto ao dia de amanhã” (Mt.6.34).

Saul: A atitude de Saul era bem contrastante com a de seu filho Jonatas. Saul via a Davi como uma ameaça e Jonatas como uma reposta para a nação. Jonatas desejava que DAvi liderasse a nação por reconhecer que Davi era capacitado por Deus. Saul estava disposto a lutar pelo trono, Jonatas acreditava que Deus já estava no trono. Quando Davi foi perseguido por Saul e pode matar Saul, por duas vezes Davi negou-se a fazer isso porque seu conhecimento sobre Deus o impediu.

Davi: A atitude de Davi foi humilde com Simei reconhecendo que Deus usa as pessoas para nos punir. Mas Davi mostrou algumas vezes que seu conhecimento de Deus não era elevado em todas as questões. Teve várias esposas, o que causou danos graves em sua família. Davi adulterou e assassinou um homem. Também fez um censo para promover sua vaidade. Toda essas coisas estão relacionadas a um conceito incorreto sobre Deus.

A Bíblia é um tratado provando que “o meu povo perece por falta de conhecimento” (Os.4.6). E o mundo não está doente por falta de conhecimento da Religião, Matemática, da História, da Medicina, da Psicologia, da Sociologia ou qualquer outra ciência. O mundo perece por falta de Teologia. Alguns podem confundir estudo da Teologia com a Ciência da Religião, mas Geerhardus Vos explica que a Teologia afirma o que é  a verdade e a Ciência da Religião simplesmente versa sobre o que tem sido crido e praticado no passado (Teologia Bíblica-pg 21). 

Precisamos de Teologia para termos qualidade de vida. E Geerhardus Vos diz que a Teologia nos dá conhecimento segundo a cosmovisão semítica (ter a realidade de alguma coisa interligada com a experiência íntima de vida). Esse tipo de conhecimento é diferente do conceito grego de reproduzir a realidade de uma coisa na consciência.

Por isso, cremos que o conhecimento de Deus é capaz de interligar todas as esferas da vida humana de dar esperança de integralidade. A Palavra de Deus mostra o sentido das coisas, a verdade sobre elas e como devemos pensar corretamente sobre o que nos acontece e ainda, nos ensina a esperar em Deus quando ao aclarar do futuro.

E o conhecimento teológico verdadeiramente bíblico é o único meio do ser humano alcançar a qualidade de vida, a saber: a vida eterna.

 

 

DESVIO DE FINALIDADE

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Paulo Zifum

Corruptio optimi pessima  (a corrupção do que é ótimo é a pior)

Talvez, o grande escândalo do pecado está em negar que os dons esplêndidos são dádivas de Deus. É uma corrupção achar um bem com indicação do dono e ficar com ele como sendo proprietário. Ainda pior, achar uma peça fabricada e negar a existência de um fabricante. Ter uma voz de ouro, uma inteligência de gênio, uma beleza ímpar e um talento sublime, e dizer “não há Deus”. A tentativa de arrancar o chip do sensus divinitatis é um dos piores efeitos do pecado e as celebridades parecem disparar nessa fuga paradoxal para as estrelas (Is.14.13-14). Pois “eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador” (Rm.1.25). Quanto mais alto, mais longe do alvo.

 

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SE MORRER VOU LEMBRAR?

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Paulo Zifum

Sim! Você vai lembrar de tudo.
A memória após a morte não será apagada porque a Bíblia afirma que a identidade será preservada. Isso afirmamos pelo fato de Samuel aparecer a Saul (1Sm.28) e pelo fato de Moisés e Elias aparecerem a Jesus no momento de sua transfiguração (Mt.17.1-3). Jesus ao tratar da vida após a morte, afirmou que as pessoas manterão plena consciência sobre quem são e a vida que viveram (Lc.16.19-31).

Vamos lembrar de nossa identidade e de outros por algumas questões lógicas:

A primeira por causa da justiça. A Bíblia afirma que, após a morte vem o juízo (Hb.9.27) e todos prestarão contas do que fizeram com seus corpos (2Co.5.10). O tribunal divino julgará cada um conforme suas obras, conforme está escrito: “Vi também os mortos, grandes e pequenos, de pé diante do trono, e livros foram abertos. Outro livro foi aberto, o livro da vida. Os mortos foram julgados de acordo com o que tinham feito, segundo o que estava registrado nos livros” (Ap.20.12). Ora, seria injusto condenar uma pessoa que não se lembra quem é nem nada do que fez. E além das sentenças, há também as recompensas. Os justos receberão do Senhor o reconhecimento por sua fidelidade (Mt.25.31-46) e, isso seria confuso se após a morte não houvesse memória.

A segunda questão lógica é que, se nossa memória fosse apagada anularia toda a possibilidade de sermos gratos eternamente por nossa redenção. Se não lembrarmos de nossos pecados do passado não poderíamos adorar pela Graça de Cristo e sua morte não faria sentido, uma vez que não há lembrança de nossa confissão aos pés da Cruz. O ladrão da Cruz quando entrasse no Paraíso não poderia mensurar o tamanho do amor e da bondade do Senhor.

Por fim, se não houvesse memória após a morte, qual sentido teria a revelação de João ao dizer que Deus “lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (Ap.21.4)?

No Céu, os justos lembrarão eternamente a História da Redenção que será musicada,  cantada, descrita e moldurada em todas as artes. A única diferença é que após a morte, quando o Senhor enxugar as lágrimas, curará as memórias. Lembraremos de tudo, mas não mais com os traumas e medos nem com as limitações de conhecimento que hoje temos. 

Após a morte, eu serei eu,
com meu audacioso plano de conhecer a Deus
pelos méritos de Cristo

pelos séculos dos séculos
εἰς τοὺς αἰῶνας τῶν αἰώνων· ἀμήν
in saecula saeculorum