DIVÓRCIO EM 1916

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“Como os interesses, que se regulam pelo casamento, não são transitórios, como não são apenas, dois indivíduos, que se unem, e sim, também da sociedade e dos filhos, como esses interesses são permanentes, porque a família é de natureza permanente, a perpetuidade do vínculo matrimonial traduz, com felicidade, a relação criada por esse concurso de solicitações diversas, egoístas e altruístas, harmoniza e equilibra os impulsos da liberdade individual, que não quer limitações, e as necessidades sociais, que as impõem, em benefício da coletividade, da prole e, também, dos próprios cônjuges, para os quais a dissolubilidade é, muitas vezes, um incentivo para a dissolução”

Comentário do Código Civil dos Estados Unidos do Brasil, por Clóvis Bevilaqua, o próprio jurista que elaborou o Código Civil de 1916.

Lei 3.071 art.315 -A sociedade conjugal termina

I. Pela morte de um dos cônjuges. II. Pela nullidade ou annullação do casamento. III. Pelo desquite, amigável ou judicial.
Parágrafo único. O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges, não se lhe applicando a presumpção estabelecida neste Codigo.

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DEUS E EU

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Paulo Zifum

Era chegada a hora do ritual de passagem dos doze anos. A noite estava gelada quando o pai o acordou. Sem saber a hora, o filho entra com o pai no coração da floresta. O pai segue em silêncio e o filho não fazia ideia qual seria o teste pelo qual passaria. Quando a escuridão era total na mata fechada, o pai faz o menino sentar-se e veda-lhe os olhos com uma tira de couro, depois se afasta e diz:

-Agora você é um homem. Só retire essa venda dos olhos quando o dia amanhecer.

O coração do menino acelerava ao pensar que agora estava sozinho. O teste exigiria dele toda a coragem pudesse ajuntar. Ele não poderia gritar por socorro, mas estava naturalmente assustado. E para afugentar o pavor, falou em voz alta:

-Agora sou um homem! E homens de verdade enfrentam seus medos!

Porém, falar, não o deixou sem medo. O frio aumentava e os sons estranhos pareciam ficar mais altos. Insetos batiam em seu rosto. Por diversas vezes pensou em desistir, tirar a venda e correr dali, mas poderia perder-se na floresta sem o pai. Ele estava tão tenso que começou a chorar. Mas, bravamente resistiu distraindo-se com um graveto.

Passadas apenas duas horas, o dia amanheceu. O menino demorou um pouco para notar o dia porque a venda estava bem apertada. Mas, ao ouvir o canto dos pássaros notou que havia amanhecido. E qual foi sua grande surpresa quando tirou a venda?

Seu pai estava ali, sentado a sorrir.

-O senhor não saiu daqui a noite toda?

-Fiquei a seu lado todo o tempo. Esse é nosso segredo, filho. Nunca conte isso a seu irmão caçula e nem a nenhum amigo. Todos precisam passar por esse teste.

CARMELITA ENSINA

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Paulo Zifum

Alguns idosos ficam mimosos para ganharem carinho, mas minha mãe, com 86 anos é mais esperta. Ela protege os muros de sua independência e os defende com tudo que possui, não por orgulho, e mantém o rosto de guerra, por necessidade. Não admite que sintam dó dela e um dos mecanismos de defesa é hostilizar as ofertas de ajuda. Carmelita acredita que o aumento do conforto cria vício e enfraquece a fibra. Se alguém sugerir que ela está carente ou que não pode mais fazer algo, ela nega, recua e depois cria sua própria narrativa para suas limitações.

Carmelita é uma leoa e sempre será. Os filhos a temem, pois mesmo idosa, sem rugir, ainda causa pânico na turma toda. Ela tem um modo de falar como quem está no topo. É indomável por sua natureza valente, e não tem medo de nada.

Ela é amorosa, mas não é sentimental. Sua vida sacrificial por sua prole deu a ela muita autoridade, e essa ela usa muito quando o assunto é justiça. Alguns idosos não querem mais saber de “dar uma dura” em filhos e netos, mas Carmelita, continua presidindo a “vara” da infância e da juventude (marmelo, cinto e chinelo), e ainda instaurou a “vara” dos adultos traquinos onde “dá um sabão” na gente, até hoje.

Por seu temperamento, falha, porque fala. Mas é irrepreensível no que faz. Quanto ao falar, já sofreu pelo pouco silêncio que produziu. Mas é linda! Ruidosamente bela! E nós ficamos felizes de vê-la forte, rindo e botando a gente pra correr, mesmo com quase 90 anos.

Mamãe é muito esperta e nos ensina a viver!

 

APENAS UM HOMEM SEM CAMISA

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Paulo Zifum

Fui a uma cidade desconhecida onde não era ninguém. Eu não era ninguém. Um total desconhecido. Tirei a camisa e segui, despudorado de calção velho e chinelo gasto, com o cabelo despenteado, sem lenço e sem documento.

Ignorado, segui pelas ruas sob o calor de 40° num subúrbio com poucos adjetivos. Eu era apenas um homem sem camisa, um latino-americano sem dinheiro no bolso ou parentes importantes.

Senti-me ordinário entre meus pares que não me notavam. Ninguém cumprimentou-me. E eu, sempre atento para essa educação, fazia de conta ser um homem da cidade. A  ninguém dei sequer boa-tarde.

Quanto mais pequeno e insignificante, mais feliz eu ficava, por poder andar de peito aberto, exibindo o umbigo tímido. Lá ia eu: livre, sem me preocupar além de ser apenas um cara sem camisa.

Por que passamos a maior parte do tempo usando roupas, posses e talentos para disfarçar o sinal do umbigo? Esse sinal de que nascemos totalmente dependentes e que, ainda, dependemos de tantas coisas. Por que alguns têm tanta dificuldade de afirmar-se na declaração do “nu vim, nu voltarei” (Jó.1.21) ou do “nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele” (1Tm.6.7)?

Depois de caminhar um pouco e fazer compras, voltei para a casa cedida que mais parecia um forno, sentei-me frente ao ventilador e decidi viver o quanto pudesse sem camisa alguma.

MEU CAFOFO E DEUS

cafofo

Paulo Zifum

Meu coração é meu cafofo. Tranco a porta e fico comigo mesmo. Raramente abro para visitas. Receio que alguém saiba demais vendo pequenas desordens.

Meu cafofo tem espaços sem luz, onde pego as coisas tateando. Diversas vezes me machuquei sem saber em que. Desconheço o que tem nele. Temo por isso.

Meu coração tem um pequeno quarto, uma cama pequena e um cobertor curto. A janelinha do quarto em forma de relógio é minúscula, alta, onde subo com esforço numa cadeira velha faltando um pé. A luz que entra por ela alegra meu dia.

Quando a noite chega, com ela as dúvidas. Fico o máximo de tempo na sala, em pé olhando para a luz do abajur. Não consigo sentar no sofá, embora pareça tão convidativo. Digo que não tenho tempo. Meu cafofo tem tudo, mas algumas coisas não funcionam.

Acho bagunçado. Principalmente embaixo do tapete. E no quartinho das coisas que não deram certo, guardo meus cacarecos. Deveria desistir dessa mania de querer consertar tudo.

Considero meu cantinho um lugar mediano. Nem favela nem palácio. Acho-me afortunado pelo conforto das mobílias de tradição cristã, mas, ainda assim,  por vezes, não me acho.

-Senhor! Por que não colocas em ordem esse lugar onde habitas?

Ele apenas sorri e pergunta sobre o que tem para comer. À mesa, após boas risadas, ele fica em pé comigo junto ao abajur. Esqueço, por momentos, o caos e a ordem. Vou dormir no quarto escuro sendo iluminado por aquele sorriso. Pareceu-me que ele se importa mais em cear comigo que arrumar meu cafofo.

A CASCA DOURADA

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Paulo Zifum

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

Mário Quintana

A casca dourada é um salto da poesia. Ela lembra o personagem Balu que dança com Mogli na animação da Disney: “necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”.

O que Quintana quis dizer com “casca dourada”? O tempo é precioso, mas quem pode viver contando? Quando o poeta usa a expressão “casca dourada e inútil das horas” ele, talvez, esteja indicando um dualismo onde ter quantidade nem sempre significa ter qualidade.

Mas,  a expressão também pode ser uma revolta contra a tirania do tempo que nos põe aturdidos na “estranha hospedaria”. Quintana talvez fale sobre o desperdício de viver de modo cauteloso demais, econômico demais.

A vida e o amor parecem voláteis e a exortação cabe bem para os que ficam “juntando cascas” em torno de coisas e coisas e coisas. Por fim, depois de colher um montão de coisas douradas, se perceberá que juntou-se ouro de tolo. Pessoas amadas são mais importantes e cada “casca dourada” com elas nunca poderá ser inútil.

Se Santo Agostinho, que não canso de citar, lesse Mario Quintana, logo diria: “Ame a Deus e tudo fará sentido e nada ficará perdido”.

 

REALIDADE ÚLTIMA

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Paulo Zifum

A Lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir, e não a realidade dos mesmos.” Hb.10.1

Os judeus pensavam que a Lei Mosaica era um fim em si, o próprio propósito de Deus. A Lei era, de fato, superior aos povos ao redor em sua cosmovisão humanista, era superior em seu ordenamento jurídico e a mais acertada na eficácia da ordem social. Mas, era apenas a sombra da Caverna de Platão.

Os judeus achavam que a sombra era a realidade e não sabiam que ela apontava para a realidade última. Deus estava se movendo na direção dos homens e a Lei era sua sombra. Quando Jesus veio ao mundo, trouxe a realidade, e mostrou que tudo apontava para Ele.

Aplicando isso a pequenas relações de nossas vidas, podemos dizer que somos tutoreados por leis e regras que deveriam nos conduzir para a maturidade. Por exemplo, um radar de velocidade num determinado local nos deveria ensinar que existem razões para não correr. Essas razões estão relacionadas à finitude de nossa vida e também ao combate à compulsão de fazermos tudo correndo. A maioria das pessoas que levam multas não estavam em missão de socorro. O radar é uma sombra que seria totalmente dispensada se os homens percebessem que não precisam correr.

Alguns filhos que reclamavam da sombra da tutela dos pais bons e firmes, depois que entram para a realidade da vida, notam que foram disciplinados para o bem.

O amor efusivo de um jovem casal pode ser apenas uma sombra do amor encorpado e sacrificial que está para se manifestar. Muitos casamentos experimentam, depois de anos, que o verdadeiro propósito do casamento é colaborar para redenção um do outro.

Muitas coisas no mundo podem ser explicadas pela metáfora da “sombra”. E nós, pequenos filósofos que imaginamos que “há muito mais entre o céu e a terra”, podemos afirmar que nem tudo que vemos, sentimos e cremos é de fato a realidade, mas sim algo que nos orienta para ela