SOBRE OS OMBROS DE VICENTE

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Paulo Zifum

Vicente Leite de Paula é um homem eterno!

Ele me disse que, quando era solteiro, levava as garotas para a capoeira*. Carmelita nunca se deixava levar para tal lugar, pois era uma moça de valores. Pois foi isso que o atraiu. Ela disse que nunca entraria para a coleção dele. Ele firmou a voz e disse:

-O dia em que eu tomar um compromisso contigo, nunca você ouvirá que eu estive com nenhuma outra mulher.

Eles se casaram e tiveram 11 filhos. E ele cumpriu, não apenas o voto de fidelidade, mas todos os campos da hombridade. Sua presença no lar, seu sacrifício de provedor, sua vigilância como protetor de sua prole e seu exemplo, eram os muros da família.

Saia antes dos filhos acordarem e voltava quando já estavam todos dormindo. De sol a sol trabalhava em serviços extenuantes para dar sustento à família.

Longe de casa em viagens a trabalho, era abordado por moças que ofereciam seu corpo por um pouco de comida. Vicente as acolhia para dar o alimento que pudesse e chegou a chorar várias vezes ao ver a situação daquelas meninas que tinham idade para serem suas filhas. Era um homem nobre.

Temperante e muito pacífico, Vicente era de poucas palavras, porém muito firme. Sua esposa certa vez ficou descontrolada num acesso de raiva e ele disse:

-Carmelita, você pode quebrar tudo e extravasar sua raiva, mas não venha para cima de mim que eu te derreto!

Homens como Vicente, se comprassem uma briga seria um desastre sem volta. Quando suspeitou de homem que estava desrespeitando uma de suas filhas, Vicente sussurrou no ouvido dele:

-Não faça isso! Porque se eu souber, o Estado de Minas ficará pequeno para nós dois!

Era um homem de palavra e, normalmente, os que assim procedem, não se vendem ou se deixam levar por negócios desonestos. Vicente por causa de seu caráter firme “perdeu” oportunidades de enriquecer de modo fácil.

Quando um filho homem bebia demais fazendo vexame ou faltava com respeito com as noras, Vicente chamava para fazer uma pergunta e, com uma afirmação, cortar o cabra ao meio:

-Você alguma vez já me viu fazendo isso? (silêncio)… Isso não é do meu tipo!

As palavras de um homem calado, saiam de seu silêncio como espadas. Nenhum filho ficava inteiro.

Vicente era um homem bem-humorado. Mas carregava dores e mágoas como todo homem bom. Tinha frustrações como todo homem que sonha. Porém, nunca se vitimizou como todo homem de verdade. Foi um esposo amoroso, pai exemplar e amigo fiel.

Deus o tomou para si. E o deixou para nós de modo que, sobre seus ombros pudéssemos ver o que é ser homem.

*Capoeira é uma vegetação secundária composta por gramíneas e arbustos esparsos.

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PERGUNTAS CERTAS PARA O CORAÇÃO

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Paulo Zifum

-Você conhece Jesus Cristo?
-Sim. Sou pastor.
-Mas, o senhor o conhece?

Perguntas podem abrir um coração sincero, fechar um coração duro ou balançar um inseguro. A primeira pergunta feita na Bíblia foi o diabo que elaborou: “foi isso mesmo que Deus disse?”. Pode ser maliciosa e pode ser redentora.

O jornalismo mexeriqueiro faz perguntas apenas para o oferecer fofoca como entretenimento (Pv.11.13).  Há maldade em perguntas cuja intenção é humilhar alguém. Mas, o homem bom evita perguntas indiscretas por respeito à privacidade do próximo a quem deseja proteger.

O QUE VOCÊ FEZ?
A Bíblia narra importantes diálogos que nos ensinam a fazer perguntas redentoras. Em Gênesis 3, além da maliciosa pergunta de Satanás, temos uma série de perguntas que Deus faz para Adão e sua esposa Eva. Nesse diálogo podemos aprender que para Deus as pessoas são preciosas. Exatamente por saber onde Adão estava escondido e o que ele havia feito que Deus faz as perguntas “onde você está?” e “o que você fez?”.  Oferecer ao outro a oportunidade de se manifestar e se explicar é mais gentil que invadir a privacidade com seu “exército de verdades”. Podemos notar a graça de Deus em suas perguntas. Podemos perceber o amor respeitável de Deus.

QUEM É VOCÊ?
Isaque perguntou a Jacó: “quem é você?” (Gn.28.18). Alegoricamente, temos limitações para identificar quem são as pessoas de verdade e com perguntas tentamos descobrir o que pensam e quais são seus valores. Isaque perguntou o que era essencial, mas Jacó o enganou em sua resposta.

COMO POSSO TE AJUDAR?
Elcana, talvez sem perceber, fez uma pergunta insensível para sua esposa Ana: “Por que está triste? Será que eu não sou melhor para você do que dez filhos” (1Sm.1.8). Nossas perguntas podem revelar um espírito soberbo e revelar nosso minúsculo interesse pelas pessoas. Por causa de nosso egoísmo, o uso de retórica pode ser uma grosseria, pois descarta a opinião do outro.

VOCÊ ESTÁ FUGINDO DE QUÊ?
Deus envia seus profetas para fazer perguntas a seu povo. Ele enviou João Batista a dizer: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? (Mt.3.2). Quando nosso comportamento não é franco e, sem perceber, começamos a nos desculpar, nos promover ou atacar alguém, precisamos de profetas que nos perguntem “o que você está tentando fazer?”. É impossível  fugir de Deus (Sl.139.1-5), mas podemos ter sucesso escondendo das pessoas que realmente somos e quais são nossas reais motivações.

POR QUÊ VOCÊ ESTÁ NERVOSO?
Jonas é o único livro que termina com uma pergunta. Deus questiona Jonas: “é razoável essa suas sua ira?”. Devemos ter postura cautelosa com uma pessoa irada e Deus o aborda de modo amoroso e sereno (e faz isso o livro todo com esse cabeça dura!). Deus não queria brigar com Jonas, mas buscava salva-lo também. Nínive se mostrava mais tratável que o próprio profeta.

VOCÊ ME AMA?
Jesus fez várias perguntas redentoras. Um destaque importante fica para a solene inquisição do amor: “Pedro, tu me amas?” (Jo.21.15-23).  O poeta Stênio Marcius enquadra essa passagem da seguinte forma:
O Homem junto à fogueira convida pra ceia
para uma conversa sincera!
Brasas queimando na areia
E dentro de mim a lembrança de tê-lo negado
Por nada!

É a hora da verdade aqui em volta da fogueira
Melhor lançar tudo que é palha no fogo!
Olhe bem dentro dos olhos do Homem que reparte o pão
E me diga se alguém é capaz de enganá-lo?

Perguntas! Jesus não queria machucar Pedro com um confronto sobre seu passado de fracasso. Jesus queria restaurar Pedro.

Você entende essas coisas?

SEM CERTEZA SENSÍVEL

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Paulo Zifum

Existem doenças que não apresentam sintomas sensíveis. É possível estar a um passo da morte sem sentir sequer um aviso. Nem tudo nessa vida é como colocar a mão no fogo. Alguns males demoram a se manifestar devido ao período de incubação.

Ao comer algo estragado, nosso organismo sensível sente na mesma hora. Podemos ingerir algo a que temos intolerância e nossa imunidade dispara. Porém, nem tudo é facilmente identificado e os sintomas podem ser mascarados.

Em Gênesis 2, temos um sinal de alerta. Deus disse para Adão e Eva não comerem de um fruto específico. Foi um tipo de “censura para idade”. O texto nos fala que o “conhecimento do bem e do mal” (Gn.2.16-17) estava acessível, porém contraindicado devido à estrutura humana. Era o famoso “pode, mas não deve”.  E Deus os avisa de um perigo sobre o qual não adiantava explicar com detalhes porque não entenderiam como nós entendemos hoje. É como avisar um jovem que deseja liberdade sem nunca ter assumido responsabilidades. A falta de noção impede de discernir a importância de um “não”.

O caso é que Eva, a primeira aventureira, tomou do fruto e o comeu. E qual foi sua experiência? Ela sorveu o doce sem efeito colateral imediato, que lhe deu a falsa sensação de que foi bom. E bom nos parece tudo que não nos causa mal instantâneo. Bom pode nos ser tudo que não tem uma consequência ruim certa. Ela não sentiu nada.

E por sentir-se imune, gabou-se do feito. E é nesse instante que a experiência do pecado ilude o pecador. E não somente aquele que peca, mas engana os que assistem, pois vendo a felicidade da transgressão, passam a duvidar da verdade. Adão jamais comeria se sua mulher estivesse com dores ou pedindo ajuda. Somos induzidos pela euforia dos pecados cujos efeitos permanecem incubados.

Os pecados cometidos “sob controle” são os mais danosos, pois não nos derrubam imediatamente. Adão e Eva não morreram biologicamente. O efeito slow fade do pecado atingiu primeiro a fé, o caráter e as noções de verdade. Depois que Adão come do fruto, foge, e quando é confrontado, nega sua responsabilidade. Ele não notava o pecado. Ele sentia vigor físico e sua mente estava esperta para explicar as coisas. 

Vivemos num mundo totalmente preso à Gênesis 3. O quadro se repete todos os dias:

“A criança não obedece regras e sente gratificação imediata. Ao ser reprimida, duvida da legislação, fazendo um plano secreto de um dia ser livre para fazer o que gosta. E quando cresce redefine com seu conhecimento o que é o bem e o mal. E segue assim até que algum efeito colateral devolva uma sensibilidade perdida pela obstinação”.

No caso de Adão e Eva, a morte os atingiria mais adiante, no modo mais cruel, no capítulo 4 de Gênesis, quando Caim, o filho mais velho, mata seu irmão Abel. A morte do ente querido, talvez, seja a pior forma de conhecê-la.

“Os pecados de alguns homens são manifestos antes de entrarem em juízo, enquanto os de outros descobrem-se depois” (1Tm.5.24).

O LAÇO DOS ÍDOLOS

Na tua longa viagem te cansas, mas não dizes: É em vão; achas o que buscas; por isso, não desfaleces. Mas de quem tiveste receio ou temor, para que mentisses e não te lembrasses de mim, nem de mim te importasses? Não é, acaso, porque me calo, e isso desde muito tempo, e não me temes?”
Isaías 57.10-11
Deus nos criou para si, mas não nos tem no sentido afetivo. Devíamos ama-lo, mas encontramos outras paixões inferiores que podemos pegar, segurar e consumir.
Emboranos tenha feito para ama-lo, ele nos permite sair desse plano.  E ninguém tem tanta disposição como ele de deixar ir a quem ama. Nisso, ele impõe a si mesmo o estado de “tudo sofre, tudo suporta”.
A relação afetiva entre Deus e Israel é descrita no Antigo Testamento como um casamento fadado ao amor não correspondido. E os profetas eram os amigos de Deus que o ouviam em seu lamento de marido mal amado.
Israel havia tomado um caminho de “longa viagem” uma “terra distante”. E, embora a tentativa de viver fora da aliança fosse o pior e mais acidentado caminho, ainda assim via vantagem. E por quê? Porque quando amamos algo, nos semtimos recompensados por obtê-lo.
O sucesso da idolatria, então, é o laço dos amantes.  A vaidade, o prazer, o dinheiro e o prestígio, uma vez alcançados, recompensam.  E nessa equação Deus é posto à margem, deixando de ser o objeto de desejo, sendo substituído pelas coisas que ele mesmo criou.
E uma das marcas de Deus é sofrer calado. E esse silêncio confirma a natureza de um amor que não pode ser carente, mas resistente.
Mas, talvez alguém questione a razão de Deus enviar os profetas para reclamar o amor negado. Se Ele é livre e liberta, por que reivindicar afeto?
A resposta está no amor. Embora ele deixe ir e mantenha silêncio, não negligencia declarar seu afeto. É um santo equilíbrio: deixar ir, depois buscar”.
Ele nos busca nos braços de nossos outros amores (ídolos).  E ele sabe que estamos motivados a continuar agarrados neles.
Felizes são os que notam a tolice e soltam o laço e correm para aquele que chama “vinde a mim”.

Molhe meus lábios

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Paulo Zifum

Ó quem me dera uma música! Uma gota que fosse pura para refrescar minha boca seca nesse deserto onde só ouço areia.

Ó quem me dera um som! Que o artista com uma nota e uma letra fizesse do sertão um manancial.

Senhor! Tenho sede de ouvir os teus sinos. Sim, os teus hinos que escrespam a alma e tocam tudo que se esconde.

Sentado numa pedra frente ao rádio eu desejo uma música, uma gota que molhe minha boca, e me faça sorrir até que, eu volte a cantar.

Image: John Cahil Rom

 

A CONCHA

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Paulo Zifum

“A concha da segurança superficial se partiu”

Em 2014 vivi uma crise. Às portas de uma delicada decisão, numa casa de campo, me recolhia para entender a base embaixo de meus pés. O passado, até ali, não me causava nenhuma saudade, e no futuro não via nada promissor, mas sentia uma alegria que há muito não experimentava: a incerteza de tudo.

Passei dias em oração. Estava decidido a deixar minha cidade, aconchego familiar, meu trabalho de anos. E o que mais revigorava meu coração de meia idade era o fato de não saber para aonde ir. Eu estava inseguro e, ao mesmo tempo, mais confiante em Deus.

Estava saindo de uma concha e havia amadurecido a ponto de não criar nenhuma segurança artificial. Senti uma lasca do tônus da fé de Abraão ao  viver uma saída para  uma terra que seria mostrada.

PUSILÂNIME: MENOS CRISTÃO

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Paulo Zifum
Pusilânime: que revela pusilanimidade, fraqueza moral,  covarde, medroso, fraco. Indivíduo fraco de ânimo, de energia, de firmeza, de decisão.
Todo homem precisa sofrer críticas para ser fortalecido ou transformado. Agora, vivemos tempos de, como diria Guilherme de Carvalho, “sentimentalismo político, afetivização da moral, pusilanimidade na condenação pública de ideologias irracionais”.
A crítica não precisa ser endereçada com o nome do cristão, apenas levantada em mídias, aulas e conversas. Basta, para configurar oposição. E o que se espera do fiel seguidor de Cristo? Que ele saia em defesa da fé! Que resista ao relativismo e às falácias das “novas visões de mundo” decorrentes da negação da verdade absoluta da Ordo Creationis.
Entretanto, um corte pusilânime tem sido externado por muitos cristãos, principalmente pelos que possuem discernimento do mal. Esses são atalaias sem ânimo, energia e firmeza. E, como falta-lhes decisão, não gritam o perigo.

Ser menos cristão é encolher a cabeça entre os ombros (para não usar a metáfora mais deselegante). Ser menos cristão é deixar que acadêmicos, jornalistas, artistas, políticos e clérigos façam livremente sua engenharia social anti-cristã, sem nenhuma resistência.

Alerta!

Parafraseando Mt.13.12: “ao que tem energia em combate, mais dela lhe será dada, mas ao que não tem, até a que tem lhe será tirada