MANUAL DA LIBERDADE

Paulo Zifum

Temos liberdades que não valorizamos. Uma delas é poder ir ou ficar, viajar até chegar na fronteira à pé. No caso do Brasil, dependendo do ponto em que se está, o homem livre vai precisar de semanas para cruzar o país.

A liberdade, entretanto, não se resume ao ir e vir, porque uma pessoa pode estar fisicamente solta, mas emocionalmente e espiritualmente sem liberdade alguma. E uma das áreas mais comuns onde as pessoas ficam presas por anos está num ponto sutil: o desejo de se livrar de tudo que prende, limita ou ameaça.

É natural, instintivo que se jogarem sobre mim uma rede, vou me debater para livrar-me. Porém, nem sempre debater-se é inteligente. A maioria das pessoas deseja livrar-se de tudo que causa desconforto, e às vezes de modo insano gastam todas as suas energias para mudar um “não”.

Essa vida em estado de alerta, automatizada nas reações negativas quanto às circunstâncias faz com que ânsia por liberdade tenha um efeito contrário: tornar mais espessa a cadeia.

Jesus veio ao mundo para “proclamar liberdade aos cativos” (Is.61.1) e disse “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo.8.32). Essa verdade ele ensinou em seu famoso Sermão do Monte:

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’.Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.
E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.
Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado”.Mt.5.38-42

Note como Jesus destaca o senso popular de retribuição: “o toma lá, dá cá”. Esse raciocínio de justiça e vingança nos torna reféns do desatino do outro. E Jesus, ao ensinar o caminho da liberdade, faz seus discípulos pensarem: “Sou obrigado a reagir?”.

Estamos sempre reagindo, não como pessoas livres que seguem sentimentos e razões nobres, mas como oprimidos. Por isso respondemos sempre em defesa própria. Mas Jesus questiona esse tipo de comportamento.

A vida, em certa perspectiva, é muito previsível. As pessoas vão nos ofender! Isso é certo! Então, porque devo reagir como se estivesse surpreendido? Porque partir para a disputa daquilo que os outros dizem ser importante?

Quando Jesus diz: “deixe que o outro leve a vantagem que pensa estar levando”. É como  se ele dissesse: teste o quanto você é livre e não depende da opinião do outro, veja se você é livre dos bens materiais ou se é escravo do tempo.

Comece com coisas pequenas, depois siga para liberdades maiores como essa:

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’.
Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem,
para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso!
E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”.
Mateus 5:43-48

Se lermos o Sermão do Monte poderemos notar quer o treinamento dos discípulos era elevado. Jesus conduzia seus seguidores para a liberdade, mas essa, tinha uma senda específica: a Cruz. E ele nada omitia em seu ensino ao dizer que para fazer isso dar certo era necessário “negar-se a si mesmo” (Lc.9.23).

Em Cristo a liberdade é possível, mas seu acesso é paradoxal: é preciso perder para ganhar (Mc.8.35). Logo, o Manual da Liberdade pronto no Sermão do Monte é assim:

  • Para ser livre o Senhor te libertará de você
  • Ele te dará uma Cruz e lhe guairá à negar-se a si mesmo
  • Ele te fará crer que a renúncia é o caminho da liberdade
  • E, por fim, ele te fará livre para amar quem não merece amor.

ARGUMENTUM AD HOMINEM

Paulo Zifum

Os judeus na época de Jesus usavam o argumentum ad hominem (do latim: argumento contra a pessoa). Eles negavam o valor do ensino de Jesus atacando a pessoa dele e não seus argumentos. E por que faziam isso? Por dois motivos: Primeiro porque não tinham argumentos para o enfrentar, segundo por preconceito. Jesus era pobre, autodidata e natural de uma cidade sem tradições religiosas, a ainda por cima andava com gente muito simples e comia com publicanos e pecadores. Jesus “era do povão”.

Pessoas que usam esse tipo de estratégia para vencer o debate provam ser extremamente fracas de inteligência e de péssima educação. Desqualificar uma pessoa por causa de sua condição social, aparência, raça, religião, pela associação de pessoas que a acompanham é um golpe baixo. Rejeitar o argumento de alguém fazendo ilações de que sua defesa é  movida por interesses suspeitos e que ela é hipócrita, é um ato leviano. Colocar o caráter do oponente em dúvida para enfraquecer seus argumentos, é deplorável.

Esse tipo de comportamento covarde que, ao perceber que perderá o pleito, solta falsos testemunhos, quebra o nono mandamento. Quando as pessoas soltam o “mas, você também faz” ou “quem é você para dizer isso?”, estão dando sinais de fraqueza e apelam para o insidioso ad  hominem.

Jesus reprovou seus discípulos quando reagiam desse modo negativo. Certa vez encontraram um homem que expulsava demônios e o proibiram. Foram contar para Jesus o quão zelosos tinham sido, mas o mestre os repreendeu por atacarem o “veículo” sem considerar o “conteúdo” (Lc.9.49).

O cristão é capaz de reconhecer no ímpio, pela graça comum a todos, os insigths de verdade. Ouvir um argumento verdadeiro e assentir com ele não significa que você valida tudo ou considera perfeita a pessoa que ofereceu uma sentença perfeita. A frase “concordo com o que você disse, embora não compactue com seu estilo de vida”.   

 

NOVA GUERRA MUNDIAL

Batalha invisível: estamos prestes a ver uma Guerra Mundial ...

Paulo Zifum

Tudo mudou no mundo.
Nada mais será como era antes.
Nem a guerra.

As nações descobriram novas armas de guerra: tecnologias essenciais de uso pessoal para arrastar dados e narrativas existencialistas manipuladoras. O uso de fake news para vencer o inimigo é muito antigo, mas nunca na história da humanidade se usou esse recurso em tão larga escala. E nunca se pagou tanto para arregimentar hackers.

O mundo globalizado está digitalmente conectado, cooptado e infectado. E quem souber mexer os bytes (como os antigos encantadores), terá o mundo digital a seus pés e, com ele, todos os que dele dependem.

Parece que a força física não será mais decisiva. Na guerra cibernética, agora com esse imenso ciberespaço global, a catapulta do Arquimedes moderno chama-se “aplicativo”, onde basta um ponto de apoio para se atingir o planeta todo. E, é claro, o fantasma da guerra biológica também ressurge mais sofisticado, sutil e assustador.

Estamos às portas de um novo mundo.
As redes sociais são como dobradiça do tempo.
O homem?
Continua carregando um malware irracional.
E Deus?
Continua reinando. Sozinho.
Os que sabem orar, orem.

PAGA PARA NÃO USAR

Seguro de vida: entenda como funciona e quais as suas principais ...

Paulo Zifum

Em minha cidade, devido à pandemia, a Prefeitura conseguiu abrir uma Unidade Médica de Pronto Atendimento. Fiquei feliz ao saber que a população tem mais um ponto de apoio para socorrer suas emergências de saúde.

Essa felicidade que senti, para minha surpresa, aumentou cada dia mais, pois ao passar pela clínica, notei que os atendentes ficam conversando ou mexendo no celular, sentados no saguão ou na porta de entrada.  E vendo essa cena quase todos os dias, pedi a Deus que assim continuasse.

Porque não pagamos convênio médico com o desejo de usar, nem seguro de vida com intuito de usufruir de suas coberturas. Não colocamos cinto de segurança pensando em testar sua eficácia. O desejo, nesse caso, é nunca precisar de usar.

 

SÍNDROME DO PEQUENO PODER

Paulo Zifum

Nessa pandemia observei e interagi no mundo como o Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry. Chamou-me atenção de como “pequenos reinos” surgiram com a oportunidade de controlar a vida alheia e os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) que já existiam, foram excitados a invadir esferas de modo a aumentar sua autoridade.

O desejo humano por protagonismo surge discreto ou escancarado. E como a maioria considera sua vida ordinária, a oportunidade de brilhar e “colocar o nome da História” precisa ser agarrada.

Na pandemia há um excesso de burocracia e politização da saúde, de modo que os gestores públicos acabam mostrando sua síndrome do pequeno poder. E como porteiros, com autoritarismo controlam a entrada e saída de pessoas, e isso sem plausibilidade.

E essa síndrome atingiu diversos cientistas e pesquisadores que, num corporativismo nada discreto, mostraram o quão misturado é o desejo de salvar com o vontade de mandar. O mote “ciência, ciência, ciência” é sintoma da síndrome.

E porque receberam um crachá, por lei se acham no direito de determinar as liberdades individuais. E, de fato, essa autoridade foi dada nas urnas para esses pequenos ditadores, que agora abusam do poder emanado do voto.

O senso comum diz que só há uma forma de interromper essa drama social: nas próximas eleições, arrancar o crachá dos porteiros autoritários. Porém a cosmovisão cristã denuncia que trocar pecadores  do poder não garante que tiranos não surgirão. O desejo de poder está na natureza caída.

O que o mundo precisa é converte-se ao Evangelho de Jesus Cristo, onde todos são confrontados com a pregação da Cruz e o ego humano é posto em quarentena. Se isso não ocorrer, essa síndrome mais contagiosa que o corona, surgirá em cada um de nós na mais leve chance de mandar em alguém.

O HOMEM AUTÔNOMO

Paulo Zifum

O pecado tem sua cobiça original: desejo sem a lei e poder sem o rei. Desde quando surgiu a primeira sugestão de liberdade sem limites em Gênesis 3, as pessoas tem uma coceira no ouvido, uma tendência a buscar alívio nos cochichos do autonomia sem Deus.

O cristianismo prega que o pecado, fato da vida humana, prova que precisamos das leis de Deus. Essas leis estão resumidas nos dez mandamentos que firmam: Deus é o rei e a vontade dele é que se ame e respeite o próximo (Ex.20.1.17).

Porém, o egoísmo é um verme que consome sua vítima e a leva a sacrificar a razão e a paz para se viver sem lei e sem rei. A Revolução Francesa trazia o slogan “ni dieu ni maître!”, mas logo conheceram a fracasso do discurso autônomo. Há caos com autoridades sobre os homens, muito mais sem ela.

Toda a autoridade é instituída por Deus, logo, é com Deus que devemos reclamar quanto às hostes constituídas. E, se a desobediência civil e rebelião ocorrer motivada em busca de leis justas e um rei justo, esse protesto deve antes ocorrer para com Deus e na consciência dos homens. Porém, a rebelião pura em busca de autonomia egoísta, é um suicídio moral que leva ao caos.

“todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus” Romanos 13.1

VENHA A NÓS O TEU REINO

Paulo Zifum

A oração do Pai Nosso é uma declaração de submissão, mas nos dias em que estamos vivendo pode ser um clamor. A expressão “venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade” pode partir um suplicante que, ao olhar o mundo ao redor, pede que Deus neutralize e vença os reinos humanos e estabeleça a ordem com justiça e paz.

Não somos nós que iremos assimilar o reino de Deus, mas se pedirmos, Ele descerá com suas hostes e estabelecerá sua vontade. E, nesse caso, não dependerá de uma rendição dos ímpios, mas atenderá o clamor dos justos.

Hoje, o mundo ímpio desfruta de governos democráticos por causa do avanço do reino de Deus na Reforma Protestante. Nações de governos democráticos foram cristãs, mas hoje estão rebeldes.

Deus pode atender a presente geração fazendo avançar a Igreja, ou pode retirar suas hostes. Ele pode fazer sua vontade ou pode nos deixar entregues às nossas disputas e vaidades.

Clamor é oportuno.

Profecia e Pandemia

Paulo Zifum

“encherei de embriaguez todos os moradores desta terra” Jr.13.13

Vivemos tempos em que o mundo ficou exposto a um comportamento nada sóbrio. Governantes e governados discutem e gastam tempo e recursos como pessoas embriagadas sem senso de direção.

Não há quase nada de sério no discurso “fique em casa”. Os números de mortos são somados e manipulados. O uso de máscara dá sensação de responsabilidade, mas os dados não ajudam essa narrativa.

Deus está provando diversas teses nessa pandemia e uma delas é que o ser humano é frágil e facilmente enganado.

INVEJA

Paulo Zifum

Admito que sinto inveja. Enrubesço.
E se o décimo mandamento me proíbe,
é porque me quer bem, longe do abismo.

Mas, sinto. Faço contas que não são minhas.
Tento ser mais alto, mais belo e mais sábio.
Não porque preciso, mas por tolice.

Imagine se nos ombros de Deus eu,
não estou no lugar mais alto?
E Ele me é o mais belo de todos os horizontes.

Mas, não me sinto cheio.
E o vazio da inveja incha-me a alma,
de nada, de nada, de nada.

Ó Senhor! Perdoa-me!
Agradas-me! És suficiente!
Eu bem sei.

SALMO 37 parte 1

Paulo Zifum

O Salmo 37 destaca que Deus, no tempo certo, resolverá todas as causas e questões do direito e da justiça. E essa é uma esperança maravilhosa, mas uma coisa é saber desse fim glorioso, outra é conseguir esperá-lo com paciência. E quando perdemos a serenidade, seja por algo/alguém (fato) ou ansiedade nossa (imaginação), as coisas podem não terminar bem devido rompantes de raiva ou  rompimentos com pessoas queridas.

O Salmo afirma que Deus, não nós, tomará providência justas, de modo que, ao nos sentirmos impotentes, saibamos exercer a fé, acalmando nosso coração.
O texto trata com sensibilidade o conflito que os justos vivem no convívio com os ímpios. Esse conflito, segundo o Salmo, pode gerar dois sentimentos polarizados: indignação e inveja que podem deter ou desviar o justo de sua senda.

O Salmo começa com expressão hebraica לדוד (lo tit-hah) : “não fique quente ou aquecido”.  Quando vemos pessoas sentadas conversando ao redor de uma fogueira não achamos nada de errado. Mas, a presença de fogo perto de uma casa ou um carro causa preocupação. Assim como uma pessoa com febre não é um bom sinal, a vida indignada e constantemente frustrada não é saudável.

Diante de um iminente incêndio o verso 8 manda הרף (he-rep): “soltar, relaxar” para mudar o aspecto irado do rosto estampado nas מאף (ap): “narinas”. E não apenas relaxar, mas o texto orienta ועזב (azob): “abandonar”, ou seja, mudar a direção, o assunto, a ênfase.

E por que esse alerta? A expressão חמה (he-mah) descreve que o sentimento de destempero é um “calor, veneno”. A ira pode facilmente perder o controle. E porque as pessoas são “lenho seco” (Lc.23.31) e frágeis, o texto sentencia com um אך (ak): “certamente” להרע (será mau). A maioria das coisas que nos irritam não são tão nobres e nossos sentimento nem sempre estão bem direcionados ou justificados.

Note como Mical administrou mal sua frustração (2Sm.6). Se ficando irado com um impio já não é saudável, imagina com um homem piedoso? Note como Paulo alerta para o perigo espiritual da ira em Efésios 4.27 e ilustra como um “pôir do sol” que faz escurecer a vida.

Os justos podem sofrer desfechos ruins se não tomarem cuidado com sentimentos “acalorados”. Confusões irreparáveis e doenças perigosas como depressão, infarto ou perda da imunidade podem seguir a indignação.

É inevitável. O cristão em sua condição de pecador será acometido por sentimentos de indignação. As injustiças e frustrações com as pessoas vão cercar o justo. Nossas causas podem ser boas, mas não bom esperar por demais nos homens.

Por isso o verso 2 nos lembra que não devemos colocar nossa vida e saúde em algo que vai passar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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