DORMIR TARDE, TARDE DEMAIS

Sem título

Paulo Zifum

Inútil levantar-vos antes da aurora, e atrasar até alta noite vosso descanso, para comer o pão de um duro trabalho...” Salmo 127.2 Versão Católica

Existem dias que não devemos nem dormir. Há tempo para tudo e o descanso não se encaixa em tempos de luta, de trabalho, de estudo, de conclusão e de espera à porta da resposta iminente. Mas, nem tudo é circunstância de uma mãe com o filho no hospital ou o preparo de evento único. A vida é pão com margarina e café ralo quando não se está em guerra.

O problema é quando o sítio da mente não acalma. Ficamos com os olhos rachados de ânsia quando tentamos concluir aquilo que a vida só irá completar em um século. O coração acelera durante a noite e nem em dia de folga o corpinho consegue dormir um pouco mais pela manhã. Nossa noção pequena do tempo diz: não há tempo a perder. E nos perdemos longe do Shabat de Deus.

Deus, que é uma pessoa tranqüila, diz que essa atividade toda é inútil. Acordar cedo demais, dormir tarde demais todos os dias é uma das formas de dizer que estamos sozinhos no mundo e que Deus não se importa.

Levantar cedo demais ou atrasar o descanso é um costume de gente trabalhadora. O Salmo 127 não é para preguiçosos. É um texto para workaholics*. Também se aplica a gente desorganizada que trabalha em excesso. É um aviso de Deus para formiguinhas que querem adiantar o inverno da vida toda num só verão.

Reduzir o repouso para comer um pão penoso não parece nada sabioso!

Deus me disse que pode me ajudar enquanto estou dormindo. Eu pedi perdão a Ele e prometi que irei dormir mais cedo e acordar no horário.

“…pois Ele o dá aos seus amados até durante o sono.” Salmo 127.2

*Trabalhador compulsivo ou Workaholic meio que um “trabalhólatra” (também, adicto ao trabalho, dependente do trabalho ou workaholic) designa uma pessoa viciada em trabalho.

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MINHA ESTRELA MAIS QUERIDA

estrela

Paulo Zifum

Disseram que eu devia pedir a Deus uma esposa. Eu tinha 15 anos, mas insistiram que deveria pedir. Ainda que achasse cedo, passei então a ser específico nessa oração, seguindo as instruções que deram. Pedia todos os dias numa conversa de encomenda sobre as virtudes desejadas. Nessa época eu vivia num mundo contemplativo e me ocupava com orações e canções a Deus sob a luz do luar (sempre apreciei encontros românticos). Estava submerso em devoção e satisfeito com Deus, entretanto, pedia uma esposa todos os dias. Eu sentia que Deus ficava contente em ouvir essa prece.

Sem saber, eu estava mesmo era seguindo uma estrela. E ela estava, do outro lado de Deus, com 12 anos de idade, brilhando. Eu não imaginava quem seria essa pequena luz. Continuei a orar por um ano.

Então, do outro lado de Deus, a estrela começou a pedir que me fosse permitido vê-la, sem saber o quanto eu também a buscava. Eu com os pés no chão e ela nas nuvens, seguíamos em oração para que Deus nos desse um para o outro.

Então o Senhor escolheu o momento de todos os momentos. Soprou as nuvens e deixou que a linda estrelinha brilhasse para mim. Deixou que não apenas a visse, mas que pudesse toca-la. Então, ela sorriu o brilho mais intenso, dentre todas, só pra mim. Eu respondi com poesia e encanto. Ela iluminava e eu suspirava no céu de nosso amor.

Ah! Como valeram as orações que fiz! Foi muito mais que pedi. Um estrela só pra mim! Para iluminar minha estrada acidentada. Para lembrar sempre que a felicidade é uma resposta de oração.

Faz 40 anos que Deus a fez brilhar.                       Faz 27 que a vi chegar.                                            Faz 20 que não tenho olhos para outra luz e nenhuma outra estrela me guia.           Sigo para ela, que me leva para Deus.          Minha estrela mais querida. 

NÃO-LUGAR

Paulo Zifum

A parábola do Filho Pródigo (https://www.bibliaonline.com.br/nvi/lc/15) conta nossa história. Revela o quanto eu e você vivemos no “não-lugar”*. Quando estamos em casa, temos desejos secretos e extravagantes de Pasárgada. Quando alguém tem coragem de largar tudo pra correr atrás de seu sonho, ficamos ressentidos com gente que pareça mais livre e feliz. O filho mais velho era tão deslocado quanto o mais novo. Parece que “voltar para casa” é uma necessidade tanto daquele que rompe com a moral quanto daquele que se sustenta dela. Eram dois filhos infelizes na casa de um Pai amoroso. Assim nos parece o homem no mundo criado e sustentado por Deus. O poeta Vicente de Carvalho acertou quando respirou os seguintes versos:

O eterno sonho da alma desterrada.           Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada.                     E que não chega nunca em toda a vida.
Felicidade que supomos,                            Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,            Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre onde a pomos.               E nunca a pomos onde nós estamos.

A Parábola resume nossa busca: liberdade em terra distante ou ardente expectativa por uma festa de reconhecimento por todos os nossos serviços. Liberdade ou reconhecimento são “rações” com as quais nos domesticamos.

Mas, ainda bem que o Pai está lá para nos deixar sair em busca da “felicidade”. Esse mesmo Pai permanece de braços abertos para nos deixar voltar. E imaginamos que, tanto o filho mais novo quanto mais velho devem ter percebido o quanto haviam desperdiçado suas vidas.

Alguns se desviam e passam anos longe de casa, outros ficam em casa sobrecarregados com as regras e responsabilidades. O não-lugar traz essa sensação de vazio aqui e frustração lá. Onde achar descanso para a alma? Onde teremos real satisfação?

O Pai ajuda seus filhos a saírem do “não-lugar” mostrando o caminho volta para casa, a verdadeira.

*Vale a pena ler a obra Não-Lugares de Marc Augé (antropologia)

O LENHADOR

Paulo Zifum

Quando eu era criança ficava impressionado com as mãos dele. Seus dedos eram grossos e quadrados. Toda vez que vejo um machado, o imagino saindo de casa ao romper do dia, entrando na mata para escolher seus desafios. Penso nas batidas secas e cadenciadas do machado. Penso nas lascas voando e o suor salgado escorrendo em seu rosto. Penso no perigo das toras gigantes desabando no ar. Penso nele cansado, sentando com sua marmita, meditando como faria para dar uma vida melhor para seus filhos. Penso que éramos a razão dele cortar mais árvores que os outros lenhadores e a lavrar dormentes até anoitecer. Penso nele voltando para casa picado de mosquitos, molhado de suor, com os braços doloridos e mãos cortadas. Penso nele entrando em casa, com seu machado nas costas. Ele só tinha tempo de tomar um banho, comer do prato que sua esposa com carinho colocava, dar um beijo nos filhos e deitar cansado. Imagino que ele sonhava com árvores caindo enquanto amolava seu machado.

Fui carregado nos braços de um lenhador, que me pegou e disse: meu filho!                Ainda vejo seu machado.                                                           Tenho saudade dele.

IRMÃ BRANCA

Paulo Zifum

Ela nasceu branca, de neve. Seus cabelos louros faziam combinações de beleza alemã. Mas o cabelo foi uma decepção, porque foi ficando sarará, revelando que Jucélia não era só da europa. Mas, era branca, como uma Elfa. Se as orelhas fossem pontudas a gente a chamaria de Fada D’ajuda. E o temperamento? Nisso sim, puxou as linhagens da nobreza. Serena e sensível. O sorriso? Sei lá. Combina com o olhar. Jucélia tem semelhança com a árvore. Dadivosa de sombra e fruto, resistente ao tempo e quieta. Um bem para todos. Nunca ouvi dizer que a tal árvore tenha machucado um pardal. Jucélia, a mais branca dos Leite, a mais Leite que todos. Vicente de saia. Deus a plantou para nós, para as crianças, para o mundo duro. Quem esteve com ela e não lembra de Deus? Ela traz as coisas mais dóceis de Deus. Nossa irmã branca. Nossa e de todo o mundo. Límpida pelo Sangue, do Vinho da Videira, Jucélia  verdadeira e sem dolo. Arvore de agosto que dá gosto de ficar embaixo.

ÀS VEZES NÃO É NADA DISSO

Paulo Zifum

Meu pai tinha um pequeno senso de humor, típico de pessoas discretas. Éramos surpreendidos quando a casa ficava em silêncio. De repente, ele saía com essa: “às vezes nem é nada disso”. A gente esperava a explicação do suspense. Porém, ele fazia uma pausa e depois rachava de rir sozinho. Por toda a casa, pequenos risos sem som surgiam, enquanto um silêncio gostoso se estendia. E no fundo, no fundo, eu achava aquilo pura filosofia. O mote ficava na cabeça da gente: “às vezes nem é nada disso”.

Eu passei a aplicar esse “efeito” à minha vida muito séria. Quando sou sequestrado por uma dessas fixações de ideais, quando me vejo idolatrando alguma beleza, quando meus olhos secam de ansiedade ou me sinto ameaçado por uma opinião alheia… eu suspiro e solto essa frase de meu velho pai. Dá um alívio, sabe?